In Verbis


icon-doc
REVISTA DE 2018

O verdadeiro regime dos salários baixos

  • PDF

Rui Ramos - Para António Costa, é mais importante ter muitos funcionários mal pagos, do que menos funcionários, mas mais bem pagos. É a função pública reduzida a uma variante do rendimento social de inserção.

Os socialistas não desenvolveram apenas uma conveniente vergonha de José Sócrates. Parecem também desejosos de se distanciar das ideias que traziam nos bolsos quando desembarcaram no poder em 1995, há vinte e três anos. O problema é que desde então não arranjaram outras ideias, como se percebe pela reflexão filosófica que o secretário de Estado Pedro Nuno Santos mandou imprimir há um par de semanas. A ideia de Blair, Schroeder e Guterres, nos anos 90, era pôr o Estado a “construir” e a dirigir mercados, para com os impostos pagar a expansão do Estado Social. Pedro Nuno Santos vem agora renegar a Terceira Via. Qual é, então, a sua alternativa? Não é nenhuma, é exactamente a mesma coisa: “construir” e dirigir mercados. Pedro Nuno Santos é uma espécie de Monsieur Jourdain político: tal como o personagem de Molière fazia prosa sem o saber, o secretário de Estado faz Terceira Via sem o saber (ou dizer).

Admito que, entusiasmado com o convívio revolucionário de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa, o secretário de Estado até preferisse fazer outras coisas. Acontece que não pode. Porquê? Porque não tem dinheiro. Para financiar os seus défices, esta maioria depende do BCE, que é, de facto, o partido líder da geringonça. Repare-se nas políticas da habitação. Sem dinheiro, resta-lhes isto: ameaçar ou estimular os senhorios, mudar os nomes aos programas já existentes, e dar longas entrevistas aos jornais.

Mas é um erro pensar que, por causa destes constrangimentos, é indiferente serem estes ou outros a governar. Não é. E o primeiro-ministro, este fim de semana, explicou porquê. Para ele, é mais importante ter muitos funcionários, embora mal pagos, do que menos funcionários, mas mais bem pagos. A função pública não parece ser, para Costa, uma carreira profissional, mas uma variante do rendimento social de inserção. No mesmo fim de semana, a Dra. Teodora Cardoso aludiu ao “mistério” de “o desemprego baixar e os salários não subirem”. Em Portugal, para António Costa, não é um mistério: é um projecto. Trata-se de atulhar Portugal de dependentes do Estado, todos inseguros e facilmente persuadidos de que só um voto em  Costa lhes garante o salário. Sim, isto é o socialismo.

Nada disto é de facto misterioso. Em Portugal, salários que não correspondam a um aumento da produtividade e dependam apenas de redistribuições estatais só podem ser baixos, porque, ao contrário do que clamam o PCP e o BE, não é possível redistribuir muito mais, num país em que uma minoria dos cidadãos contribui com a maior parte da receita dos impostos directos, e em que só quem não pode não abastece o automóvel em Espanha. A galinha dos ovos fiscais está no limite. Porque é que os socialistas pensam que é necessário um regime tributário favorável para atrair estrangeiros, mas não para reter nacionais?

Desde 1995, que Portugal tem sido governado quase sempre pelo PS, com as esquerdas em maioria no parlamento. E desde então, que esses governos e essas maiorias resistem às recomendações internacionais para tornar Portugal mais competitivo, clamando que limitar a protecção estatal a certos grupos de interesse — sindicais, corporativos e empresariais — levaria a uma “economia de baixos salários”. Mas que o ganhou o país com essa resistência? Uma economia que, com a italiana, foi a que menos cresceu na Europa nos últimos vinte anos, e que gera sobretudo remunerações modestas. Por causa do Euro, argumentam PCP e BE. Mas que nos esperaria fora do Euro, senão as desvalorizações do Escudo e os seus salários diminuídos pela inflação? De uma maneira ou de outra, é o que o PS, o PCP e o BE têm para dar aos portugueses: o verdadeiro regime dos baixos salários e das baixas expectativas.

Rui Ramos | Observador | 15-05-2018

Comentários (14)


Exibir/Esconder comentários
... , Comentário com excessivos votos negativos [Mostrar]
...
Valmoster, diga qual o poder reivindicativo dos magistrados, por favor?
como diz? , 15 Maio 2018 - 23:20:42 hr.
...
Tem razão o Valmoster... não há dúvidas nenhumas que são os magistrados, os professores, os polícias, enfermeiros e médicos e todos os demais funcionários do Estado quem compram, com os seus elevados salários, os porsches, Ferraris, Mercedes e afins que circulam nas nossas estradas e adquirem as casas de milhões de euros.
Pois claro... , 16 Maio 2018 - 04:19:22 hr. | url
...
Todos os meses a CGA publica a lista mensal de aposentados. Aconselho uma visita e um pequeno estudo comparativo dos quantitativos abonados às diferentes categorias profissionais.
Valmoster , 16 Maio 2018 - 12:08:27 hr.
...
A lista da CGA só significa que os valores ali publicados correspondem a uma vida de mais de 40 anos de elevadas contribuições. A Segurança Social não publica as listas, mas nelas há pensões de 10.000, 12.000, 20.000 mensais e até mais, atribuídas a gestores, economistas, etc. que também muito contribuem. A questão principal é que esses valores são ILÍQUIDOS. No caso dos magistrados, os valores líquidos são inferiores a 50% a 60% (taxas máximas de descontos para IRS, CGA, ADSE). Esses valores líquidos não correspondem nem à enorme responsabilidade, nem exigência, nem trabalho fora de horas não remunerado, nem ao elevado investimento académico que lhes é exigido. Aliás, todos quando confrontados com os valores líquidos dos magistrados são unânimes em reconhecer que são muito inferiores ao que conjecturam que auferem. Com a diferença que ao contrário de médicos, políticos, advogados e afins, não podem exercer qualquer outra actividade pública ou privada remunerada. O resto é populismo barato. Quem quer bons profissionais deve remunerá-los bem. Um vencimento líquido de 2.000 euros a um magistrado é uma ofensa, quando esse valor é a "base" do salário de trolhas, picheleiros e afins, embora tudo "em dinheiro vivo", pois declarar para pagar IRS está quieto. Como, aliás, acontece com a generalidade de muitos que desdenham.
Afonsinho do Condado , 16 Maio 2018 - 12:18:46 hr.
A herança de Sócrates
Caro Valmoster, o Senhor faz-me lembrar os tempos em que o eng.º José Sócrates assalariava «amigos» para nas redes sociais e caixas de comentários dos pasquins da Lusitânia dizerem bem do governo e do seu chefe e muito mal «das corporações» e seus integrantes.
Estas e estes cá continuam a trabalhar honestamente... E aquele lá segue na sua vidinha, esforçando-se para manter à tona um «certo estilo» que alguns teimam em perdurar...
Passe bem.
Francisco do Torrão , 17 Maio 2018 - 16:24:46 hr.
...
Caro Francisco do Torrão, assalariado só da CGA. Quanto a corporações, trabalhei numa, honestamente e com muito orgulho, durante mais de 30 anos. Agora, por estar de fora, talvez veja o mundo de forma mais abrangente.
Valmoster , 18 Maio 2018 - 14:52:29 hr.
Ah
então o Sr. Valmoster queria que as pessoas que passaram a vida a fugir do fisco, a receber dinheiro vivo sem descontarem mensalmente, tivessem uma pensão igual à dos que sempre descontaram.

Os funcionários públicos podem trabalhar noutra actividade remunerada. Ex. agentes da PSP podem nas horas livres fazer segurança nas discotecas, etc. Há funcionários de camaras municipais a trabalharem depois desse serviço, no Ikea. Funcionários judiciais que depois vão trabalhar no restaurante, mercearias, no seu negócio. Médicos que alegadamente carimbam presença /impressão digital no público e vão para a sua clínica privada...

Os magistrados não o podem fazer. Trabalham no duro.

Há quem se queixe que o paizinho ou a mãezinha têm uma pensão de 200 e tal euros. E porquê? Estudassem, trabalhassem e descontassem a vida toda para ter um valor superior.
A inveja é uma coisa muito feia.
x , 18 Maio 2018 - 21:10:45 hr.
...
Já não dou para estes peditórios há uns anitos bons. Trabalho de 2.ª a 6.ª e recebo a esmola que me querem dar e chega. Nunca tive melhor vida e, sim, estou bem pago para o que agora faço e já nem pesa na consciência se as coisas andam à velocidade da carroça.
façam como eu , 26 Maio 2018 - 14:22:06 hr.
Ao façam como eu
Cuidado se o csm sabe...vai de carroça.
v , 29 Maio 2018 - 15:43:02 hr.
Á medida
x diz:
Há quem se queixe que o paizinho ou a mãezinha têm uma pensão de 200 e tal euros. E porquê? Estudassem, trabalhassem e descontassem a vida toda para ter um valor superior.
A inveja é uma coisa muito feia.

Assim falaria Procusto! X deve pensar que todos tiveram as mesmas condições para estudar, descontar, e vir mais tarde a auferir uma reforma decente. Não é assim a vida senhor x, pois cada um teve a vida á sua medida. Cuidado não apareça por aí um Teseu!
Pastor sem reforma , 07 Junho 2018 - 18:48:48 hr.
Ao Pastor
sem reforma

Em Portugal até há cerca de 5 anos (muitas famílias perderam rendimentos entretanto, etc.) todos que queriam podiam estudar com uma bolsa de estudo por carência económica. Há programas do Iase, sase, etc.
O Estado, que somos todos nós os pagantes do IRS/IVA/IRC, etc., suporta esses gastos - alojamento, passes, bolsa.
Claro que pode haver excepções quando é a própria família a impedir que o filho/a saía da sua aldeia para estudar.

A minha experiência demonstra que quem quer tudo pode.

Sem sacrifício, sem esforço pessoal nada se consegue.


Tive também colegas Faculdade casados, com filhos e com mais de 50 anos a tirarem curso Direito.
x , 11 Junho 2018 - 10:05:37 hr.
...
Ao Pastor

Olhe para o exemplo do Cristiano Ronaldo.
x , 11 Junho 2018 - 10:09:34 hr.
xiiiis!
Os funcionários públicos podem trabalhar noutra actividade remunerada. Ex. agentes da PSP podem nas horas livres fazer segurança nas discotecas, etc. Há funcionários de camaras municipais a trabalharem depois desse serviço, no Ikea. Funcionários judiciais que depois vão trabalhar no restaurante, mercearias, no seu negócio. Médicos que alegadamente carimbam presença /impressão digital no público e vão para a sua clínica privada... Evidentemente! até podem mandar as mulheres e as filhas fazer um part time zito por aí na alterna! Um complemento do rendimento familiar a ver se ganham como um Magistrianus do império! E o pastor sou eu...
Pastor sem reforma , 14 Junho 2018 - 19:50:28 hr.

Escreva o seu comentário

reduzir | aumentar

busy

Últimos conteúdos

«Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de ...

Para aceder aos conteúdos anteriores da Revista Digital InVerbis: 2018 Prima no menu superior e seleccione a secção cuj...

A economia portuguesa continua a abrandar. De acordo com os dados da OCDE, em maio, esta trajetória descendente no ritmo...

{youtube}wp7AkPKfgJY{/youtube}(c) JUSTAMENTE Falar de Justiça Um Alerta ASJP | Ao serviço dos Cidadãos ...

Últimos comentários

  • Fim

    É com tristeza que vejo o fim, quem sabe uma interrupção, deste espaço de informação e debate. Bem haja pelo empenhamento e ...

  • Fim

    Ao Senhor Juiz Joel quero agradecer este espaço livre e independente de interessantes e proveitosos debates sobre o tema da Justi...

  • Fim

    Obrigado, caríssimo Colega, pela brilhante revista digital, por mim e tantos outros consultada diariamente! Lamento, profundament...

Opinião Artigos de Opinião O verdadeiro regime dos salários baixos

© InVerbis | Revista Digital | 2018.

Sítios do Portal Verbo Jurídico