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REVISTA DE 2017

A cidadania à mesa das cantinas

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Amílcar Correia - Mover processos disciplinares a alunos que divulgaram imagens ou vídeos sobre a falta de qualidade dos alimentos ou de higiene na sua preparação não é a forma mais correcta e inteligente de lidar com o problema.

As direcções das escolas parecem estar mais preocupadas em vigiar e punir os alunos que denunciaram a má qualidade da comida nas suas cantinas do que em exigir que os fornecedores melhorem a qualidade da mesma. Mover processos disciplinares a alunos que divulgaram imagens ou vídeos sobre a falta de qualidade dos alimentos ou de higiene na sua preparação não é a forma mais correcta e inteligente de lidar com o problema. Sim, temos um problema. Ou dois.

O primeiro chama-se fornecimento. Nos últimos três anos, a Autoridade de Segurança Alimentar encontrou, em várias fiscalizações em cantinas e refeitórios escolares, alimentos deteriorados, com qualidade ou composição alterada, ou até em estado de decomposição ou putrefacção. Várias associações de pais denunciaram o mesmo. As escolas têm fortes razões para se preocuparem com a saúde pública quando servem refeições com lagartas ou quando há vestígios de ratos nos fogões de um refeitório.

O segundo problema é de cidadania. Proibir a denúncia destas lacunas, com a ameaça de represálias, não é nada educativo. A cultura do come e cala é tudo menos boa pedagogia, como defendeu, e bem, João Paulo Batalha, presidente da Transparência e Integridade numa carta enviada ao ministro da Educação. É suposto que a escola seja o oposto de tudo isto; é suposto que seja um exemplo de educação para a cidadania.

De resto, não é essa a intenção do ministério, ao fazer com que os direitos humanos, a igualdade de género ou a interculturalidade façam parte de todos os ciclos de ensino? Foi precisamente a pensar nisso que a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, a pretexto de um projecto-piloto de flexibilidade curricular, foi aplicada este ano lectivo em 235 escolas públicas.

Directores de escolas que não hesitam em avançar com processos disciplinares a alunos em casos como estes, mesmo que os processos possam ter uma justificação burocrática interna, nem estão a usar da melhor forma os seus cargos públicos nem a representar devidamente as suas instituições. Muito menos a professar qualquer educação para a cidadania. Cabe ao ministério exigir aos seus fornecedores que melhorem o serviço que prestam e aumentar a sua fiscalização, para que novas situações não se repitam. Mas também era bom que alguns directores de escolas se preocupassem mais com a sua própria educação para a cidadania.

Amílcar Correia | Público | 14-11-2017

Comentários (3)


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Bem escrito. Bem dito. Na "mouche".
Valmoster , 14 Novembro 2017 - 12:19:37 hr.
...
Não é necessário ir para as cantinas das escolas, basta ver o que se passa nos Tribunais, que os funcionários estão proibidos de dar informações sobre o estado das instalações, sem o consentimento do Sacrossanto, Conselho de Gestão ou Presidente do Tribunal.

Mas, no entanto, o que se passou na cantina referente à lagarta, os "meninos e meninas" amigos e amigas da "menina" eram capazes de apanhar a lagarta e colocar no prata da "amiga" só para lhe "pregarem" uma partida e a seguir filmarem e "postarem" no facebook, instagram, youtube e afins, para terem mais 5 minutos de fama.

Digo eu!
XPTO , 16 Novembro 2017 - 18:22:36 hr.
cri cri cri
Tanto espalhafato por uma lagartinha! Num país de comedores de caracóis cuja "ranhoca" desaparece no cozido,é obra tanto delirio televisivo!
Aliás é normalissimo algumas conchas do pires de caracóis, com que alegremente saboreamos a "bejeca" estejam ocupadas com defuntos habitantes da mesma familia encontrada pela criança no seu prato de salada!
Nós que cá em casa temos uma quinta de tenébrios cuidada pelo nosso garoto, tivemos uma quase intoxicação de riso com o escândalo da lagartinha.
Os tenébrios, um pouco tostadinhos numa sertã são um pitéu que deixa qualquer prato de langonhosos caracóis á distância!
Ora o meu garoto resolveu tostar um pratinho de tenébrios e colocando-lhe uma folhinha de alface, queixou-se! Mãe! Está um bocado de alface nas minhas lagartas! Já não como isto!
Aparecerem alguns tipos de insectos nos vegetais, não é um problema de saúde pública nem de falta de higiene! Esses malandrinhos (os insectos) conseguem mimetizar-se muito bem! Estou farto de comprar couves em hipermercados que têm algum recheio interno de pequenas lesmas e lagartas., o que é garantia de qualidade. Preciso é de pôr os óculos cada vez que cozinho!
https://www.google.pt/search?biw=1366&bih=637&tbm=isch&sa=1&ei=p7YVWuDuJ8n6UNOup9gD&q=tenebrius+plate&oq=tenebrius+plate&gs_l=psy-ab.12...9708.13889.0.16435.0.0.0.0.0.0.0.0..0.0....0...1c.1.64.psy-ab..0.0.0....0.I-X6_4sP10U#imgrc=r78T5c62cHQDmM:
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Marques del Curro , 22 Novembro 2017 - 15:55:28 hr.

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