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REVISTA DE 2016

A oitava revisão

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Nuno Pacheco - "Nota do editor: o texto da Constituição foi alterado para a atual grafia". Quem é o editor? A Assembleia da República! A mesma que precisa de uma maioria qualificada de dois terços para alterar uma só vírgula no texto constitucional. Já viram que belo país, peixes? Afinal pode-se mexer na Constituição! Não é preciso governos, deputados, assembleias ou decretos. Basta um "corretor" "atualizado"!

Falar deste tema já é quase como fazer sermões aos peixes, mas enfim... Lembram-se do Alien? Infiltrou-se numa nave espacial com sete tripulantes, número bíblico, e aí foi fazendo estragos e liquidando pessoas. Mas era um pequeno monstro num filme, não era para levar a sério. Ora a nossa Constituição já teve o seu Alien.

Como no outro, ninguém deu por ele, nem mesmo os que ameaçam que na Constituição não se mexe nem numa vírgula. Aos 40 anos, talvez já com cabelos brancos a despontar, foi cirurgicamente despojada de umas centenas de letras, e em duas edições: uma mais gordinha e outra liliputiana. Alguém se indignou, peixes? Não. Toda a gente achou normal. Aliás, na versão para usar com lupa até vem escrito: "Nota do editor: o texto da Constituição foi alterado para a atual grafia". Quem é o editor? A Assembleia da República! A mesma que precisa de uma maioria qualificada de dois terços para alterar uma só vírgula no texto constitucional.

Já viram que belo país, peixes? Afinal pode-se mexer na Constituição! Não é preciso governos, deputados, assembleias ou decretos. Basta um "corretor" "atualizado"! Portanto, alterem lá o que vem na capa: em vez de "sétima revisão", como foi impresso, ponham "oitava revisão". Clandestina, como o Alien.

Há-de haver, claro, quem ache isto perfeitamente normal. Mas um livro lançado ontem, em Lisboa, da autoria do embaixador Carlos Fernandes, veio lançar mais umas achas para esta fogueira: e se tudo isto for inconstitucional? Resumindo: a Convenção Ortográfica de 1945 e o pequeno aditamento de 1973 foram sancionados por decretos-lei. Ora o AO90, que acaba de subtrair letras ao texto constitucional, nunca teve decretos ou decretos-lei a sancioná-lo. Só resoluções (que não são leis) e um decreto do Presidente (que "não governa nem legisla", como muito bem lembrou há dias o ex-PM Passos Coelho). Parece-vos isto bem, peixes? Não? Então reúnam os cardumes e ponham em sentido os tubarões. Nunca é demasiado tarde.

Nuno Pacheco | Público | 08-04-2016

Comentários (4)


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O pineão
Ká pur mim tá tudo bem. Axo ke se pudermos escrever como falamos é bué de fixe e kompreendesse tudo muito melhor. Eu gosto da atual grafia e a malta cá do bairro tb axa keu tenho razão. É ovio que as linguas devem-se escrever komo se falão.
M. Foliculina , 10 Abril 2016 - 19:19:00 hr.
Indignaçom
Eu cá também me sinto indignado...
Acho que o céu deveria ser amarelo e o sol azul. Ficava mais giro. Mas não...
Não se pode fazer para aí um decretozinho que torne isto mais colorido... Assim ao jeito de cada um! Uns dias estas cores e noutros... outras!

Sugiro aos «puros» que se adaptem... pois o planeta continuará a girar, quer eles gostem ou não.
A democracia, claro (e bem), permite que se tenham as opiniões que se queiram... Mas dá muito trabalho andar constantemente a explicar que as coisas não são como muitas vezes aparecem pintadas. Por exemplo, a suposta questão jurídica do texto sob comentário é simplesmente falsa.
«Continuemos para bingo...»
Lopes , 13 Abril 2016 - 23:56:53 hr.
...
Caro Lopes:
Somos todos espetadores, porque coocupantes, deste maravilhoso ato de união da lusofonia que é o acordo ortográfico! Uns creem que o sol vai brilhar, mas outros protegem-se com para-raios, tal é a trovoada, para não molhar o pelo.
De fato (mas sem gravata), ainda vivemos numa democracia (ao contrário do que se passa no Egito: coitados dos egípcios), o que significa poder optar por aquilo que faz mais sentido, até segundo a diçao.
Cumprimentos
primavera em abril , 15 Abril 2016 - 19:24:27 hr.
Grunhos
Penso eu que o prestigiado Prof. Dr. Manuel Vieira Pinto tem toda a razão quando afirma que não devemos preocupar-nos com as questões da lingua, já que o próximo acordo ortográfico, a negociar em breve nos porá todos a falar por grunhidos.
Resta saber se iremos escrever grunf com 2 ffs ou com dois rrs ou seja grunff ou grrunf respetivamente.
Há ainda quem defenda que deveriamos voltar ao uso do diacritico trema pronunciando Grünff ou Grrünf respetivamente.
O grupo de trabalho que se encontra a preparar o novo acordo, revela ainda que por questões de simplificação linguistica, o numero de vocabulos da lingua portuguesa será limitado a oito grunhidos, vocalizados em tons e intensidades diversas. Regressando á ortografia, esta passará a ser descritiva produzindo-se um pequeno conjunto de figuras expressivas que serão acompanhadas dos diversos grunhos (ou grünhos se preferirem)

Muitos grôffss para todos!
Kill Bill , 16 Abril 2016 - 20:11:09 hr.

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