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REVISTA DE 2016

É amarga, mas justa, a lição de Donald Trump

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Miguel Esteves Cardoso - «A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.»

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso.

Trump ganhou. Nós perdemos. Por nós quero eu dizer os meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Segundo as histórias que nós contámos aos leitores e uns aos outros o que acaba de acontecer era impossível.

As nossas sondagens e opiniões – incluindo as minhas – não só se enganaram redondamente como contribuiram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos estados totalitários.

Eu leio todas as semanas duas revistas conservadoras americanas – The Weekly Standard e National Review. Leio todos os dias o igualmente pro-Republicano Wall Street Journal. Em nenhum deles fui avisado que Trump poderia ganhar.

Sinto-me vítima de uma conspiração – não da parte de Trump mas da parte dos media. Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.

Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.

A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso.

Miguel Esteves Cardoso | Público | 09-11-2016

Comentários (10)


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Tr@mparias...
Trump ganhou porque foi eleito.

Esperemos bem que sim...
O povo americano é, na sua maioria, simplista e maniqueísta, em último grau...
Portanto, uma situação destas poderia eventualmente ser previsível..
Por outro lado, a condição de bilionário do candidato associada ao seu perfil neoliberal selvático não me tranquiliza, de todo... (Não estou a dizer que houve fraude, mas tb não tenho a mais profunda convicção de que tudo tenha decorrido dentro da normalidade..)

...fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos ...

Preconceitos ou conceitos prévios de pertinência total e absoluta?...
Giulia , 10 Novembro 2016 - 18:30:50 hr.
...
A democracia tem destas coisas. Às vezes a manada não obedece, tresmalha-se, e causa a estupefação dos iluminados e infalíveis líderes.
Valmoster , 11 Novembro 2016 - 17:58:04 hr.
The lady is a Trump
“A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.”

Triunfo da democracia?... qual democracia?... a que é actualmente exercida mediante um “colégio de representantes”... que representam quem?

A democracia enredada em si própria incapaz de se refundar já não vai a lado nenhum...nem por encomenda nos meios de comunicação social!

Diz o Prof. Adriano Moreira que o imprevisto espera uma oportunidade.

Vejamos o que vai suceder nas próximas eleições nos Paises da União Europeia...
Insanojuridico , 11 Novembro 2016 - 20:30:14 hr.
Quem tem telhados de vidro.....
Todos sabemos que a democracia norte americana funciona de forma diferente.
Porquê?
Porque os EUA são uma federação.
Isso leva a que Estados menores sejam de alguma forma "compensados" eleitoralmente a fim de evitar uma "ditadura" dos estados com mais população.
Imaginemos na UE um Portugal e restantes países menores em dimensão. federados com a Alemanha e a França. Com o sistema um cidadão um voto, facilmente esses estados (França e Alemanha) imporiam completamente os seus candidatos.
A verdade é que em democracia não existem sistemas perfeitos! Já os Romanos acérrimos defensores da Republica estavam conscientes disso instituindo sistemas de contrapoder.
Dando de barato que Donald Trump é de facto um imbecil e um ignorante, eventualmente eleito por uma cambada de i****as auxiliados por uma mole de intelectuais anarquistas decididos a subverter o SISTEMA de poder tradicionalmente instituído, resta saber se as defesas "anti poder" instituídas pela republica funcionarão ou não!
Kill Bill , 12 Novembro 2016 - 14:37:28 hr.
...
Não foi nenhuma conspiração. O povo manifestou-se sempre na Internet.

Os vídeos dele tinham sempre muitas visitas, muita aderência.

A Internet hoje em dia é bem poderosa. Existem canais no youtube, uns manhosos outros até decentes em que se formam opiniões diferentes das CNNs da vida.

Realmente era tudo contra ele - o que o tornou mais forte. O povo desconfia... quando tudo que é jornal, tv, grande corporação está contra alguém...

E assim foi. Já para não falar que a HC ajudou. Ao B.Sanders não ganhava, nem em sonhos.

esquecime , 12 Novembro 2016 - 19:25:51 hr.
...
Não compro muito a ideia de que o Trump é um imbecil e um ignorante. Se fosse, como poderia ter transformado 1 M em muitos milhões, ter falido em vários negócios milionários (casinos, etc.) e recuperar o dinheiro do Estado, através de impostos que nunca pagou durante cerca de 20 anos? Não, pode ser detestável, isso sim, fascisóide, eventualmente (não estou a dizer que isso seja bom ou mau, simplesmente não valoro factualizo), mas ignorante e imbecil nunca.

Agora, goste-se ou não, será a vez da Europa democrática (não falo da Hungria e das hungrias deste mundo, que já não são democráticas). Promeiro Áustria, e o seu futuro presidente eleito nazi, depois a França e a Madame Le Pen, depois a Alamanha e a sua Alternativa, etc. E lá mais para a frente, será a vez dos que último chegaram ao clube, ou seja, a Grécia e a sua Aurora Dourada, a Espanha do Vale dos Caídos e o Portugal da Legião, ou chame-se lá o que for nessa altura.


zé nabo , 13 Novembro 2016 - 16:32:24 hr.
...
Tudo bem, desde que não sejam os comunas a mandar no nosso rectângulo.
Alcides , 28 Novembro 2016 - 16:55:36 hr.
Komunas?
Meu caro Alcides !
Anda vocememecê a sonhar com Komunas? Fala de quem? Do falecido v(sempre vivo) castro ?
Ou do camaradda Jerolnimico do Pcp?
Percebe o meu caro alguma coisa de politica ou se limita a escretar ou se preferir "excretar", ignaras chavelhas desprovidas de racionalidade, ou como diz Trump (desgraçadamente) o meu caro sofreno momento de uma condição fisiológica inadiável, que lhe propicia um momentâneo bloqueio cognitivo?
Acontesse que a assenssão do REGIME IDIOCRATICO se esta a expalhar pela Oropa despois do que acontceu na Mérica!
Pur isso o Alssides pode istar fix kus kumnas nunka vão mandar korno nisto do rekto Ingunlo
Heil grunhosw!
Kill Bill (soft 1) , 01 Dezembro 2016 - 18:21:10 hr.
Leiam revejam a vossa cultura e se já conhecem VEJAM NOVAMENTE!
https://www.youtube.com/watch?v=fLJBzhcSWTk
Se pode parecer que alguém de "esquerda" poderá defender tal "perversão" é mera coincidencia|
Kill Bill (Nós e a verdade histórica) , 01 Dezembro 2016 - 18:30:44 hr.
...
Grande Donald Trump, homem com eles no sítio e que diz as verdades que muitos pensam e não dizem.
Mete os jornalistas e os comunistas no lugar que merecem - o inferno.
Milhões estão cá para apoiar.
Pires, o sadino , 03 Dezembro 2016 - 23:09:18 hr.

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