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REVISTA DE 2014

A justiça vende

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Cristina Esteves - Não vamos ser ingénuos, todos temos um fascínio com o crime, todos sentimos uma atracção com incidências que enleiam comportamentos desviantes, todos somos impelidos a alvitrar sobre enredos que exponham figuras públicas. E se os media podem facilmente prender a atenção do público em torno de casos da justiça, fatalmente a curiosidade inerente à génese humana e os interesses da comunicação social magnetizam uma obsessão colectiva pelo justicialismo e repulsa dos alegados oponentes.

Os media são e continuarão a ser a fonte primária de informação de carácter judicial, as redes sociais propagam-na entre "conversas de. café" impessoais e "fóruns de discussão" politizados, na alimentação de uma sociedade sôfrega mas insaciável de informação de última hora e em actualização permanente por meio das mais variadas plataformas de comunicação e interacção que contendem a crescente alienação social.

A pressão comercial adjacente à mutação no meio e na forma dos media de hoje determinam o tratamento jornalístico contemporâneo da justiça, não somente em relação aos crimes de sangue e violência, mas também no denominado crime de colarinho branco e de costumes que envolvam as elites económicas, sociais e políticas. E o desfecho de uma cobertura mediática abrangente e proficiente resulta invariavelmente no papel crescente na redefinição da opinião pública e, em última instância, nas políticas de justiça.

Os media não são meros espelhos, ou apenas reflexo dos acontecimentos. Mais do que a alegada tradicional relevância, o conteúdo jornalístico no seu todo está também influído por critérios editoriais moldados por considerandos económicos e de marketing. O jornalismo dito popular é deveras o mais consumido, pelo que a justiça é mais do que nunca uma garantia de audiência regular, mesmo sob risco de os órgãos de comunicação social tradicionais e de referência tendencial e progressivamente congregarem um estilo mais tipo tabloide. Audiência é sinal de lucro, e o crime vende.

Mais a mais, a cobertura judicial tende a incidir sobre aspectos de carácter pessoal e de natureza subjectiva ou emocional em detrimento de dados objectivos, processuais e estatísticos, ou comentário especializado. Esta abordagem fortalece indubitavelmente a percepção de crime, incutindo julgamentos sumários na praça pública e contaminando o debate sobre a punição. O exagero e exasperação na reportagem do crime, quer na essência, quer na extensão, amplifica o problema, dissemina o alarme social e inflama a discussão em tempos cruciais de decisão política. Quer dizer que as instâncias judiciais têm de gerir os riscos associados à informação veiculada, ou não, e à consequência populista de uma ineficiência na gestão da mesma.

O ano de 2014 ficará definitivamente na memória colectiva como o ano em que se sucederam casos judiciais com repercussões óbvias no futuro. A condenação dos ex-ministros Maria de Lurdes Rodrigues e Armando Vara, em primeira instância a pena pesada, acabou por dar o mote. O acórdão de Duarte Lima, ao sublinhar que o tribunal fez questão de não aplicar uma pena que possa ser considerada laxista pela comunidade, revela que quem julga não é imune ao mundo que o rodeia e à opinião que considera ser dominante.

Dez anos depois do início do julgamento do processo Casa Pia, a justiça sofreu inúmeras reformas avulsas, assistiu-se a alterações tecnológicas, mas mantém alguns dos seus paradigmas como a crónica falta de meios, a morosidade e o embaraço em informar.

Os media têm um papel crucial na percepção da justiça e das suas instituições, seria lamentável que perdurasse na opinião pública que é afinal o poder judicial que faz as reformas estruturais. 2015 já não será o mesmo, tudo é quase em tempo real.

Cristina Esteves | Diário Económico | 24-12-2014

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