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REVISTA DE 2014

Uma espécie de "golpe de estado" à democracia

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Pedro Leal - Os casos em investigação constituem uma espécie de "golpe de estado" à democracia. Se tudo se confirmar vivemos um simulacro de realidade.

Não é difícil adivinhar o misto de sentimentos que por aí vai. Entre os que acham que Sócrates merecia isto e muito mais, desde o dia em que foi eleito, e aqueles que se inclinam para a tese da cabala, e que tudo lhe desculpam, há um multiplicar de sentimentos que falham o essencial.

O mundo mudou. Até esta segunda-feira tudo se passava no campo dos rumores e das desconfianças. É certo que devemos presumir a inocência até ao trânsito em julgado, mas o impacto dos acontecimentos das últimas 72 horas... vai muito além de Sócrates.

A onda de choque da detenção do ex-primeiro-ministro, e agora a prisão preventiva, ultrapassa o próprio caso José Sócrates. O somatório de todos os escândalos que vamos tendo conhecimento atinge o nível e a qualidade do espaço público e coloca em causa uma certa elite.

Se olharmos para a listagem de escândalos de que nos últimos anos, meses, semanas, temos tido conhecimento quase todos radicam numa ausência extrema de valores que potenciam comportamentos autistas em que o bem comum, o outro e o interesse colectivo estão sempre ausentes. Este é o único problema: falta de valores.

Que sociedade é esta? O que aconteceu com esta geração? Que implicações no país político? E não me refiro às eventuais consequências no espectro partidário, refiro-me às consequências na qualidade da própria democracia, nas instituições.

Os casos em investigação constituem uma espécie de "golpe de estado" à democracia. Se tudo se confirmar vivemos um simulacro de realidade.

Francisco Sarsfield Cabral tem razão quando escreve que, "por mais dolorosa que seja, a verdade é preferível ao desconhecimento dos males que devem ser corrigidos, algo impossível se os ignorarmos".

Pura verdade. E até agora as boas notícias chegam apenas da actuação da justiça: no mínimo pela coragem da investigação. Esperemos que continue cega.

Mas na sexta e na segunda-feira à noite o mundo ganhou uma cor mais cinzenta. Há uma certa perda de inocência, um novo estado de alma. Por contraste, não resisto aqui a relembrar uma canção de Chico Buarque, escrita na sequência do 25 de Abril. Uma canção, na altura, censurada no Brasil e que tinha a seguinte letra:

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Eram outros tempos em que, apesar do PREC, Portugal inspirava poetas. Agora, cá, vamos estando doentes.

Pedro Leal | Renascença | 25-11-2014

Comentários (2)


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...
Falta de valores?

1.
Falta de valores hoje?
Pergunto: em que época histórica a comunidade lusitana promoveu valores que conduzem a uma sociedade melhor que a actual?
Foi no regime feudal? Na transição para os regimes liberais? Na 1.ª República? Durante o Estado Novo? Nos quase 40 anos que levamos de regime democrático?
Foi porventura na Europa de 1930 a 1945?
O que acontece é que hoje não temos real noção daquilo que foi o passado; ler os livros não é o mesmo que viver a realidade.
2.
Falta de valore sempre houve e continuará a haver.
Basta pensar nisto: qual é o caminho mais eficaz e seguro para chegar ao poder?
É o caminho da verdade, do cumprimento das promessas, de não prometer o que se sabe não se ir fazer, do respeito pelo bem comum, pelo que é da comunidade, pela equidade, por não querer para si mais que o devido, por querer para si apenas o que quer de facto para os outros, etc.?
Quem seguir este caminho, o dos valores que promovem o bem comum, tem muito menos hipóteses de chegar ao poder ou não chega mesmo ao poder.
Parece, pois, que isto é assim porque o grosso do cidadão comum, aquele que vota, não pauta a sua vida pelos tais valores.
Não creio que haja mais falta de valores que em outros tempos, penso até que estamos hoje bem mais conscientes e unidos (pela democratização das vias de comunicação) no que respeita a valores que promovem o bem comum.
O que importa é não perder as oportunidades para os promover e remover os obstáculos.
alberto ruço , 25 Novembro 2014 - 15:16:28 hr.
...
A maior parte dos cidadãos não vota. Quem vota fá-lo ou por fanatismo ou com a intenção de obter proveitos.
De resto. Povo atrasado=sociedade atrasada. Simples.
mns , 26 Novembro 2014 - 00:51:57 hr.

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