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REVISTA DE 2014

O fim da justiça de Sócrates

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Eduardo Dâmaso - A detenção de José Sócrates tem o poder simbólico de nos fazer acreditar que pode haver uma outra Justiça, que não aquela que foi sua amiga noutros casos e noutros tempos.

Sócrates teve amigos que o protegeram no processo da Cova da Beira, teve outros que o salvaram no caso Face Oculta, teve ainda quem o tirasse no Freeport. Sócrates recebeu propostas de reforço dos meios de combate à corrupção, o designado 'pacote Cravinho', chamando-lhe 'o debate da asneira'. E teve quem fizesse leis à medida dos seus próprios interesses.

Quis partir a espinha ao Ministério Público, controlar a Polícia Judiciária e espalhar amigos pela magistratura judicial. Sabia que era melhor acautelar problemas futuros distribuindo fidelidades e criando necessidades, como a de ter um procurador-geral da República a pedir meios como quem pede esmolas. A sua estratégia com a Justiça foi sempre e só de autopreservação.

Daqui para a frente, aconteça o que acontecer, uma coisa é verdade: o País fica mais respirável, a Justiça mais forte e a impunidade sem salvo-conduto. O PS, por seu lado, fica com uma grande oportunidade para se livrar de um ciclo negro da sua história.

Eduardo Dâmaso | Correio da Manhã | 23-11-2014

Comentários (6)


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O episódio Sócrates, que parece estar a ter agora um final feliz, com a aplicação prática da regra de uma Justiça igual para pobres e para ricos, indigentes e poderosos, tem demasiadas faces sombrias para que o saldo possa ser considerado positivo. Todos saem mal neste retrato, a começar por uma parte muito significativa do povo português, que continuou a apoiar e a votar nele quando já se conheciam episódios suficientes para perceber o que ele era, na sua essência, passando por uma quantidade infindável de comentadeiros politicos que desprezavam os indícios criminais e de variadas falcatruas que se metiam pelos olhos dentros e afagavam o "animal feroz" com uma quase-devoção verdadeiramente ridícula, um partido politico que é um dos principais partidos portugueses, que se colocou docilmente nas suas mãos como um rebanho de ovelhinhas amestradas, e culminando na cúpula da Justiça de então, que sempre o protegeu. A mesma cúpula, alias, que esteve presente no lançamento da sua não menos ridícula tese parisiente sobre a tortura, cuja primeira edição agora se soube que esgotou porque ele próprio mandou comprar exemplares em barda. Este ultimo pormenor, anedótico, define o personagem.
Com o afundamento que agora parece inevitável da barca Sócrates, deveria afundar-se igualmente toda essa nuvem de socratinhos que zumbiam à volta do chefe. Mas creio que muitos escaparão a esse destino pois já estão todos, uns de forma mais graciosa que outros, a saltar fora do barco e a nadar para porto seguro.
Reproduzo o que diz Dâmaso: "Daqui para a frente, aconteça o que acontecer, uma coisa é verdade: o País fica mais respirável, a Justiça mais forte e a impunidade sem salvo-conduto".
E, para terminar, o "coup de grace" dado no filósofo parisiense fica a dever-se à regra da separação de poderes, que vem dos tempos da revolução francesa. Mas não me refiro à sua consagração abstracta na Constituição e na lei, pois essa de pouco vale. Refiro-me à escolha, para lugares-chave do poder judicial, de pessoas que actuam na prática como um poder separado, sem constrangimentos, encomendas de resultados nem medo de represálias. É isso que importa reter deste episódio lamentável da História de Portugal.
Hannibal Lecter , 23 Novembro 2014 - 14:37:22 hr.
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O conhecimento antecipado e o acompanhamento da detenção de Socrates pelo CM, mereceria também ser investigado. Não há notícias grátis.
Valmoster , 23 Novembro 2014 - 16:16:47 hr.
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Pois devia, sobretudo o facto de notarmos que sempre que há notícias deste tipo, surgir como grande conhecedor dos processos duas figuras e um jornal: Eduardo Dâmaso e Tânia Laranjo e o Correio da Manhã. No mínimo estranho serem sempre os mesmos.
Quanto ao artigo, não passa de uma patética vingança pelos três processos judicias intentados por Sócrates contra o CM.
Não li o livro, não tenho acesso a uma inédita lista de compradores do mesmo, pelo que dou à notícia que o próprio autor teria comprado 30.000 exemplares, a mesma credibilidade que o CM me merece, enquanto jornal sensacionalista que é, tudo numa lógica da vingançazinha já referida.
Posso não concordar com muitas decisões de Sócrates, mas não alinho com o coro de "fortes" que ao verem um homem de que não gostam no chão, se enchem de coragem e o agridem de todas as formas, lançando mão a acusações que deviam fazer-nos pensar sobre a nossa forma de estar no mundo.
E ainda não vimos o que vai acontecer a Passos Coelho quando em Outubro deixar o cargo de PM.
A lógica de bater nos outros, à espera que ninguém repare em nós, será?
Orlando Teixeira , 23 Novembro 2014 - 17:58:50 hr. | url
A imagem
de muitos políticos é lavada pela comunicação social conforme as simpatias partidárias dos respectivos donos e quem está no poleiro na altura.

Não há jornalismo sério de investigação em Portugal. Nem jornalistas stricto sensu.

Este artigo podia ser aplicado também a Passos Coelho - a rede de contactos enquanto jotinha, Tecnoforma, Ângelo Correia.

E muitos outros políticos que só enriqueceram devido às posições exercidas e foram esquecidos pela Justiça pelos contactos que têm.
Qualquer dia é a detenção de ex-Presidente da República e do actual ex-PM.

O problema é o fogo que se levanta e depois é só cinzas (absolvições, prescrições)..

Onde pára o BPN,BES,BPP,PT,Submarinos...

E depois a ideia que o juiz de instrução é que é importante.

É o trabalho efectuado pelos investigadores e o MP que vão determinar a aplicação das medidas de coacção pedidas pelo MP e o juiz limita-se a aplicar ou não.

O juiz não é um justiceiro e não deve ter qualquer protagonismo nem simpatias partidárias.

... , 23 Novembro 2014 - 18:43:14 hr.
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Um bem haja a este Juiz. O maior corrupto da história de Portugal devia ir dentro...
Força Justiça.
Que prazer me está a dar a contar as noites que passa na Cholra....
Carlos Pacheco , 24 Novembro 2014 - 08:06:05 hr.
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Se houver provas seguras de que o Sócrates cometeu os crimes que seja condenado. Só continuo perplexo com o CM e , agora, o SOl. Lembro-me de no meu 1.º ano no CEJ alguém ter perguntado ao encarregado de comunicação da PJ da época (de resto, um homem com um sentido de humor extraordinário e um caricaturista notável) se o jornal O Crime era o órgão oficial da PJ e agor, após o desaparecimento deste, temo que outros tenham levantado a bandeira. De resto, se todos gostassem do Sócrates como eu, teria zero votos.
Sun Tzu , 24 Novembro 2014 - 12:24:21 hr.

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