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REVISTA DE 2014

Se Timor fosse Angola...

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Vítor Raínho - Até se percebe que um país não queira que magistrados estrangeiros julguem os seus governantes, ainda que eles estivessem em Díli a pedido das próprias autoridades timorenses.

A história simplificada é esta. Após a independência, a ONU fez um acordo com Timor enviando vários funcionários judiciais internacionais, atendendo a que a jovem nação não tinha os juízes e magistrados que permitissem o normal funcionamento de um Estado de Direito. Algumas dezenas de funcionários da Justiça e operacionais policiais de vários países foram então colocados em Timor.

Os problemas surgiram quando os ditos magistrados começaram a investigar a acção de alguns governantes, além de terem, supostamente, defendido os interesses do país face às empresas petrolíferas. Alega o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, que os magistrados portugueses se revelaram incompetentes e fizeram Timor perder muito dinheiro, cerca de 300 milhões de euros, com os tais negócios do petróleo.

Não se percebeu se foi por essa razão que todos os magistrados da ONU colocados receberam, tal como os portugueses, ordem de expulsão. Sabe-se sim, que os portugueses foram os únicos que tiveram 48 horas para abandonar o país. Até se percebe que um país não queira que magistrados estrangeiros julguem os seus governantes, ainda que eles estivessem em Díli a pedido das próprias autoridades timorenses. E se não queriam deveriam tê-lo dito anteriormente, deixando para os magistrados da ONU apenas as questões judiciais que não envolvessem membros do Estado. Se estes aceitassem, tudo estaria em paz.

Mas não foi o que aconteceu. E não deixa de ser curiosa a maneira quase ternurenta muita da comunicação social portuguesa trata, neste conflito, Xanana Gusmão e o seu inaceitável gesto de afrontamento diplomático. Imaginemos que toda esta história se tinha passado com Angola e os seus governantes. O que diria a mesma comunicação social? Tratariam o primeiro-ministro ou o chefe de Estado angolanos com a mesma compreensão e deferência?

Parece óbvio que não. É que, na comunicação social portuguesa, além de conhecidos preconceitos políticos e ideológicos, há olhares muito diferentes consoante são as longitudes...

Vítor Raínho | SOL | 05-11-2014

Comentários (4)


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Grande Raínho
nem mais...
Couves , 05 Novembro 2014 - 20:15:39 hr.
...
Para os mais atentos deixo uma pergunta.
De que país são os próximos juízes que vão para Timor?
Lua , 06 Novembro 2014 - 10:10:13 hr.
...
Os juízes devem aplicar a lei, em Timor ou em qualquer outro país. A questão é que Xanana se queixa d eperder os processos em tribunal mas isso só por si não chega. Quando fui juiz num TAF, as Finanças (FP) perdiam cerca de 60 a 70% dos processos e não era por isso (só por isso, entenda-se) que eu julgaria mal... Imõe-se que Xanana diga claramente se os juízes foram paricias ou apenas a administração timorense não agiu como devia, para se perceber onde afinal radicou a responsabilidad epor tantas pedas. Não o fazendo, trata-se de somar 2 + 2.
Sun Tzu , 06 Novembro 2014 - 14:43:21 hr.
...
Não sei se seria como Vitor Raínho diz, e recentemente tivemos a prova que não é, com Machete a pedir desculpa ao Estado angolano por algo que é público e notório.
Uma coisa sei, é que o Sol é agora mais um órgão de comunicação social de Isabel dos Santos e dos angolanos, pelo que não se estranha o artigo e a conclusão que dele é extraída.
Convém ler nas entrelinhas.
Orlando Teixeira , 07 Novembro 2014 - 00:17:05 hr. | url

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