In Verbis


icon-doc
REVISTA DE 2014

Pés atados com fita adesiva

  • PDF

Estavam com os sapatos atados aos pés e às pernas com fita adesiva". A revelação é feita ao CM por um membro destacado da COPA - Comissão Oficial de Praxes Académicas - da Universidade Lusófona, que garante ter encontrado na praia, na manhã de 15 de dezembro, horas depois de os seis colegas terem sido engolidos pelo mar, restos de fitas adesivas, tal como as que costumam ser utilizadas nas praxes.

Segundo o estudante, que solicitou anonimato por temer represálias na universidade, ele e outros colegas dirigiram-se para a praia do Moinho de Baixo, na Aldeia do Meco, para ajudar nas buscas por Carina Sanchez, Catarina Soares, Joana Barroso, Andreia Revéz, Pedro Tito Negrão e Tiago André Campos (cujo corpo apareceu ainda nessa manhã). Quando encontrou as fitas, o jovem não teve dúvidas de que os colegas estavam 'colados' quando foram apanhados pelo mar.

"A fita adesiva é usada na praxe, mas apenas quando os estudantes molham os pés, em pequenos lagos e fontes, para não perderem os sapatos e roupa", explica o aluno, que confirma ainda que se pratica um ritual, perto da água, com os jovens de costas - cada estudante, com exceção do 'Dux' (João Miguel Gouveia, o único sobrevivente) dá um passo para trás sempre que não acerta numa pergunta, para que o mar "leve nas ondas a ignorância"

"Os estudantes sabiam que iam ser praxados junto ao mar e estavam com medo, estavam apavorados e não queriam ir para a praia", conta ao CM a mesma fonte, tendo por base as mensagens de telemóvel que os seus colegas enviaram a amigos.

O membro da COPA diz ainda que a única explicação para que Andreia Revéz comcódigo de praxe 'a Haka' - tenha deixado no areal o seu ovo, um amuleto que a acompanhava sempre, era o facto de saber que ia ao mar e "tinha medo de o perder" Outros elementos que integram a COPA da Universidade Lusófona adiantaram ainda ao CM que quiseram falar para "contar a verdade sobre o que se passou no fim de semana secreto" na Aldeia do Meco, "em nome dos seis jovens inocentes" que perderam a vida; mas só o fazem sob anonimato por temerem represálias na universidade.

A maioria dos estudantes não tem dúvidas de que os seis estudantes que acabaram por morrer estavam a ser praxados por João Miguel Gouveia, porém, com medo, nenhum dá a cara para o assumir.

"Estou farta do 'Dux'. Vou para o psicólogo"
Uma nova mensagem de telemóvel enviada por uma das vítimas, Carina Sanchez, foi ontem revelada pela TVI e reforça o ambiente de desconforto e de receio que se vivia no fim de semana secreto, no Meco. "Estou farta do 'Dux'. Quando sair disto vou para o psicólogo" escreveu a jovem de Fernão Ferro, uma das seis vítimas mortais. Mário Rui, namorado da jovem, afirmou, em entrevista, que já tinha pedido a Carina para deixar a COPA. Recorde- se que outra das vítimas mortais, Joana Barroso , tinha também enviado uma mensagem escrita, em que dizia: "Espero sobreviver".

Fim de semana não foi aprovado
Foi João Miguel Gouveia, então recém-eleito 'Dux, que propôs à COPA um fim de semana de praxe para os seis estudantes da Lusófona, que acabaram por morrer na praia do Moinho de Baixo, no Meco. Mas a COPA chumboua iniciativa do 'Dux', por nenhum dos 'Honoris Dux' ter possibilidades para acompanhar as atividades nesse fim de semana de dezembro.
Apesar de não ter tido apoio, João Miguel organizou o fim de semana, à revelia da COPA, sem a presença de qualquer 'Honoris Dux'.
Ao CM um elemento do Conselho de Praxe, descreve João Miguel Gouveia, o único sobrevivente da tragédia no Meco: "O João sempre teve uma grande sede de poder, um feitio arrogante e arranjava problemas se as coisas não fossem feitas à maneira dele". E acrescenta: "Ele é um pequeno ditador, com tiques de autoritarismo. Conheço muita gente que deixou a COPA quando o João Miguel Gouveia, foi eleito 'Dux'". Um membro com responsabilidade da COPA esclarece que o código de praxe da Lusófona não aceita as praxes violentas, e quem as pratica deve ser afastado". "Os excessos do 'Dux' mostram como ele quis exercer o seu poder", diz a mesma fonte. João Miguel tinha sido eleito 'Dux' em outubro.

Investigação entregue a equipa mista da PJ e Polícia Marítima
O Ministério Público de Almada está a ser coadjuvado na investigação por uma equipa mista, composta por elementos da Polícia Judiciária de Setúbal e da Polícia Marítima. Estes órgãos de polícia criminal foram considerados os mais adequados para auxiliar o líder do inquérito - Moreira da Silva, procurador coordenador do Círculo de Almada. Já foram ouvidas as famílias de pelo menos quatro das vítimas. Os telemóveis e os computadores dos estudantes também já estão na PJ, que realizará perícias, à procura de informação relevante.

Ana Botto | Correio da Manhã | 01-02-2014

Comentários (1)


Exibir/Esconder comentários
...
Leio comentários nos jornais on-line em que as pessoas dizem coisas como "isto é homicídio negligente".
É o quê? Isto, a ser verdade, aponta mais para dolo eventual, e não sei se não será um daqueles casos como o referido num desses comentários, que dizia: "isto foi um psicopata que se queria ver livre de alguém daquele grupo ou mesmo deles todos".
O "duqs" vai apanhar uns 25 anos de choldra, e é pena não ser mais.
, 03 Fevereiro 2014 - 13:03:11 hr.

Escreva o seu comentário

reduzir | aumentar

busy

Últimos conteúdos

Com o termo do ano de 2014, cessaram as publicações de conteúdos nesta Revista Digital de 2014.Para aceder aos conteúdos...


O número de funcionários judiciais diminuiu 9,9 por cento em seis anos, enquanto os magistrados do Ministério Público au...

A partir de 1 de janeiro, os médicos vão recuperar os 20% tirados ao pagamento do trabalho extraordinário. ...

Últimos comentários

Forense Agentes Públicos Órgãos Polícia Criminal Pés atados com fita adesiva

© InVerbis | Revista Digital | 2014.

Sítios do Portal Verbo Jurídico