In Verbis


icon-doc
REVISTA DE 2014

IGFEJ diz que falha na rede informática se deve aos tribunais

  • PDF

Instituto que gere rede informática da Justiça culpa tribunais pela falha. Erros acumulados ao longo de anos na inserção de dados dos processos bloquearam sistema, diz dirigente. Funcionários rejeitam responsabilidades.

Um número elevado de processos judiciais com informação errada ou incompleta, devido a erros na inserção de dados ao longo dos anos – é esta a razão para as falhas recentes no sistema informático da Justiça, de acordo com o presidente do Instituto de Gestão Financeira e de Equipamentos da Justiça, Rui Pereira. "Não foi um problema técnico. Foi um problema de qualidade dos dados. Há dados registados de forma incompleta e registos mal preenchidos", aponta.

De acordo com Rui Pereira, foram vários os casos problemáticos encontrados na migração informática dos processos, necessária ao abrigo da reorganização dos tribunais. Entre eles, estavam o de pessoas que tinham mais do que uma morada associada, algo que acontecia quando um réu ou testemunha mudava de endereço, e o novo era inserido no sistema sem que se apagasse o anterior. Noutros casos, o número de testemunhas ouvidas num processo era superior ao registado. Noutras situações ainda, exemplifica, havia processos aos quais estavam associados arguidos ou réus de outros casos.

Tanto o Sindicato dos Funcionários Judiciais como o dos Oficiais de Justiça negam que esta possa ser a causa das falhas que paralisaram os tribunais nos últimos dias. "Isso é sacudir a água do capote", afirma Fernando Jorge, representante dos funcionários judiciais. "Podia haver um ou outro caso. Mas, mesmo que fosse verdade, deviam ter analisado essa situação com antecedência", sublinha. O dirigente sindical pede a cabeça dos responsáveis do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça: "Deviam ter vergonha e demitir-se. São incompetentes, mentirosos e enganaram a ministra da Justiça que, na segunda-feira, foi à televisão dizer que estava tudo bem".

O presidente do Sindicato dos Oficiais de Justiça, Carlos Almeida, também reage mal às explicações de Rui Pereira: "É inteiramente falso. Seria estranho que de um momento para o outro surgissem erros. Os problemas são exclusivamente da responsabilidade de quem está a desenvolver o sistema". Para este sindicalista, a ministra Paula Teixeira da Cruz "não poderá fugir a apresentar uma demissão".

Rui Pereira, por seu lado, refere que já eram esperados problemas, mas numa percentagem muito inferior. "Numa operação desta dimensão, há sempre uma percentagem de erro, que estava calculada em 1% ou 2%. Depois, seriam feitos ajustes à mão". Sem conseguir detalhar a percentagem de casos problemáticos, o responsável admite que o elevado número de problemas acabou por ser uma surpresa. Só no tribunal de Portimão, diz, tiveram de ser corrigidos cerca de 600 mil actos processuais. O mesmo dirigente nota ainda que o sistema informático não foi desenvolvido por informáticos profissionais e tem lacunas.

Sistema feito de "remendos"

"É uma aplicação feita de remendos, que foi sendo construída ao longo dos anos. Começou por ser feita por oficiais de justiça que eram curiosos da informática. Eram pessoas que, de uma forma abnegada, foram arranjando ferramentas para facilitar o trabalho dos tribunais". Para ajudar no processo de migração, foram contratados técnicos das empresas de informática Novabase e Critical Software. Entre ajustes directos e concursos públicos, as duas empresas receberam este ano do Ministério da Justiça mais de meio milhão de euros.

Ontem, terceiro dia depois da entrada em vigor da reforma dos tribunais, o sistema informático continuava inacessível nalgumas comarcas e para alguns profissionais. "Houve funcionários que ficaram alarmados quando perceberam que nem todos os processos que lhes iam chegando estavam completos", descreve Fernando Jorge. "Há detalhes que parecem ter-se perdido pelo caminho e processos que apareceram no sistema como pendentes quando afinal até já tinham sentença".

Como a gravação dos julgamentos se faz através do sistema, em vários tribunais onde não se conseguia aceder ao Citius – palavra latina usada para baptizar o sistema e que significa celeridade – foi necessário pedir gravadores e cassetes. No Tribunal de Penafiel, um juiz teve de ouvir uma testemunha num processo sem que a audição ficasse gravada. Sem o Citius operacional, o módulo de gravação na dependência daquele sistema também não funciona e, por isso, não foi possível registar em áudio o testemunho de um engenheiro no processo relativo a um acidente de trabalho. "Não é verdade que o sistema esteja em pleno funcionamento", como diz o Ministério da Justiça, observava o presidente do Sindicato de Magistrados do Ministério Público, Rui Cardoso, para quem a tutela "tem o especial dever de explicar o que se passa e quando é que o sistema vai ficar finalmente operacional".

Mas o colapso informático não é o único problema, avisa: "No Palácio da Justiça de Setúbal as obras estão a decorrer enquanto os funcionários estão a trabalhar. Existe pó por todo o lado. Estão a ser demolidas paredes e enquanto isso acontecia caíram placas do tecto. Felizmente ninguém se magoou, mas não estão asseguradas as condições de segurança". Por isso mesmo, o coordenador do Ministério Público mandou os magistrados para casa.

Também a Ordem dos Advogados acusa Paula Teixeira da Cruz de ter faltado à verdade. A bastonária Elina Fraga entende que a governante tem de assumir responsabilidades pelo sucedido. "Devia aceitar um frentea-frente televisivo para prestar esclarecimentos", desafia.

A Associação Sindical de Juízes Portugueses pediu explicações ao ministério. "Estamos seriamente preocupados", diz o presidente da associação, Mouraz Lopes.

João Pedro Pereira, Pedro Sales Dias e Ana Henriques | Público | 04-09-2014

Comentários (7)


Exibir/Esconder comentários
...
Este Rui Pereira deve perceber de informática a potes com doutoramento em antropologia social e pelo curriculum resumido publicado em DR para além da sua função de professor é mais um que à custa da politica tem se "governado".

Por isso está tudo dito.
XPTO , 04 Setembro 2014 - 11:21:29 hr.
...
Pois... os sapatos são pequenos para os pés, mas a culpa é dos pés.
Quando é que será que se tornam homenzinhos, à semelhança de alguns seres vertebrados, e assumem as claras e inequívocas responsabilidade que tiveram, tem e continuarão a ter em todo este processo?

As coisas não funcionavam antes? Sim
A informação não é a mesma? Sim
Então o problema é da migração!
A migração foi mal planeada? Aparentemente sim!
A migração está a ser mal executada? Aparentemente sim!
Não foram previstos todos os possíveis constrangimentos? Aparentemente sim!
A responsabilidade é dos utilizadores? Clara e inequivocamente Não!

Gosto de areia, mas só na praia , 04 Setembro 2014 - 13:13:05 hr.
m
Sr Rui Pereira - Demita.-se e procure trabalho.
Srª Ministra, siga as pisadas do sr. Rui Pereira.
cidadão, utente, contribuinte ... , 04 Setembro 2014 - 17:03:10 hr.
DN comentário

Comentário de "Olisipone" no DN de hoje:

"A CULPA É DOS PRÓPRIOS FUNCIONÁRIOS!!! Aqui há tempos, apresentei uma queixa, que foi arquivada. Mas EM VEZ de me mandarem simplesmente um ofício, recebi uma CONVOCATÓRIA (pensei eu, para prestar declarações pois ainda não sabia do arquivamento)... 1) convocaram-me para o edifício ERRADO 2) pediram-me para fazer um "requerimento" a declarar a minha morada (para quê um Requerimento, em vez de uma Declaração, e para quê declarar a Morada se eu a tinha mandado na queixa e foi para lá que me enviaram a Concocatória???). Isto, para DEPOIS, me mandarem pelo correio a informação do Arquivamento. DEPOIS ADMIRAM-SE SE TÊM DEMASIADO TRABALHO E FALTA DE FUNCIONÁRIOS...!!!"

Sem palavras...porque corresponde a 90% do trabalho realizado pelos funcionários, falhas e falhas (não sabem utilizar o computador nem o citius, dão erros ortográficos indescritíveis em actas, etc.) que a inspecção deles, não repara e que os classifica de muito bom!
Se o juiz lhes chama a atenção, cai o Carmo e a Trindade e é este que é penalizado.
Devia haver uma reforma nos tribunais, mas dos recursos humanos.
Quem não trabalhasse com rigor e brio devia sair....
Mais funcionários para quê?
... , 05 Setembro 2014 - 09:41:07 hr.
Outro comentário do DN
que corresponde à realidade - os ditos informáticos entraram como funcionários e foram recrutados para essa função, sem cursos superiores e nomeadamente em engenharia informática;
"BenHur

Material informático -computadores, impressoras e servidores- ultrapassadissimos; (Pseudo)informáticos (funcionários apenas autodidatas em informática, uma vez que não possuem quaquer formação média/superior em informática) que deveriam dar apoio aos tribunais, autenticos pavões que se passeiam de tribunal em tribunal, apenas para "facturarem" km e km. Quando são precisos num tribunal, dizem que estão ocupados a prestar apoio noutro, muitas vezes, não correspondendo à verdade.Parte destes problemas deve-se à impreparação de muitos desses "informáticos". Enquanto a tutela não alterar este "status quo", vai-se discutindo a sexo dos anjos. A ministra da justiça com esta "reforma" deitou lenha para a fogueira. Quem irá queimar-se ?"
... , 05 Setembro 2014 - 09:56:10 hr.
Informarico sem curso que talvez ensine alguma coisa a informaticos profissionais
Para que se conste...

* Foram os informáticos a "martelo" que fizeram uma aplicação que muitas empresas privadas tentaram e não conseguiram. (O AGIC que foi encostado é prova disso)

Foi durante a gestão dos informáticos a "martelo" que o sistema foi mantido com os seus problemas é certo, mas que funcionou tornando-a com todos os seus defeitos e virtudes uma pedra essencial na tramitação judicial

Foi com a passagem para os "supra-sumos" encartados e com o afastamento dos informáticos " a martelo" que a coisa começou a piorar em termos de funcionamento e agora com o resultado que se vê.

Este pais tem como doença a "engenheirite" e a "doutorite". As pessoas por não serem encartadas com um curso universitário, desde que competentes não devem ser descriminadas pelo trabalho que executam.

Os resultados estão a vista ...
Engenheiros com a teoria toda e pratica nenhuma ou sem conhecimento do negocio deu no que deu.





Informatico a martelo , 05 Setembro 2014 - 20:23:22 hr.
...
Caro, Informatico a martelo, apoiado a 100% e ainda acrescentava o seguinte:

Os informáticos a martelo conseguiram fizer aquilo que muitas empresas encartadas se recusaram a fazer.

Ainda pergunto, onde estão os detractores do habilius e os que em tempos se preocupavam com a segurança informática e do acesso indevido a dados em segredo de justiça, onde andam eles, neste momento?

O problema do habilius/citius foi ter sido feito com a prata da casa e isso provou uma certa dor na junção dos ossos do braço a muita gente e também porque ninguém até uma certa altura tinha ganho qualquer valor com a informática dos Tribunais, viu-se o que aconteceu com o sitaf, feito por "informáticos a sério" mas que desconhecem a tramitação processual e quem lhes deu as directrizes era desconhecedor do trabalho realizado nos tribunais.

Espanta-me o que se diz e que não se diz neste momento.

Tudo isto foi previsto por algumas pessoas, mas eram os arautos da desgraça, opositores da reforma, velhos do Restelo, etc...

Em vez da reforma ter sido feita faseadamente e ao longo de um ano não, foi tudo ao molho e fé em deus, deu no que deu.

Enfim, por muito me custe dizer isto, estamos em Portugal, sem governantes e políticos a altura, que não vêm para além dos ciclos eleitorais, digo isto com muita tristeza e magoa.

XPTO , 05 Setembro 2014 - 23:45:31 hr.

Escreva o seu comentário

reduzir | aumentar

busy

Últimos conteúdos

Com o termo do ano de 2014, cessaram as publicações de conteúdos nesta Revista Digital de 2014.Para aceder aos conteúdos...


O número de funcionários judiciais diminuiu 9,9 por cento em seis anos, enquanto os magistrados do Ministério Público au...

A partir de 1 de janeiro, os médicos vão recuperar os 20% tirados ao pagamento do trabalho extraordinário. ...

Últimos comentários

Atualidade Tribunais IGFEJ diz que falha na rede informática se deve aos tribunais

© InVerbis | Revista Digital | 2014.

Sítios do Portal Verbo Jurídico