Sócrates irritado com nome de família

Uma parte considerável do recurso que foi entregue no Tribunal Central de Instrução Criminal não é a contestar os indícios de corrupção, mas sim a falar sobre o apelido que foi 'escolhido' pelo juiz no primeiro interrogatório judicial. "É mundialmente conhecido como José Sócrates", alega o advogado do ex-primeiro-ministro, para garantir que o uso de Pinto de Sousa serviu para o humilhar. "Ficou despido de personalidade", acrescenta João Araújo no recurso que vai seguir, em janeiro, para a Relação de Lisboa.

Também Carlos Santos Silva já avançou com o recurso às medidas de coação. Paula Lourenço, que defende o empresário de Leiria, gasta também uma parte considerável do recurso a falar sobre o conceito da amizade. E garante que a generosidade não temlimites e que o seu cliente nunca olhou a meios para que Sócrates se sentisse satisfeito. Pagava tudo - casa, carro e luxos pessoais -, mas sempre sem das intenções.

Os recursos já estão no Tribunal Central, mas encontram-se agora nas mãos do Ministério Público. O procurador Rosário Teixeira tem 30 dias para se pronunciar, desde a data em que foram interpostos, só seguindo depois para os tribunais superiores. Antes de fevereiro, não é expectável que sejam conhecidas decisões.

"O meu cliente tem resistência olímpica"

O advogado Pedro Delille frisa que o antigo primeiro -ministro está com "uma resistência olímpica ao exagero da prisão preventiva". O causídico, que acompanha João Araújo na defesa do ex-governante, esteve ontem reunido com José Sócrates na cadeia de Évora.

Questionado pelos jornalistas se está a ser preparado algum requerimento, o advogado limitou- se a afirmar, sem especificar, que a defesa de José Sócrates está a preparar "algumas coisas". Foi a primeira vez que esteve a sós com o cliente na cadeia.

Perna nega a prática de qualquer crime

João Perna diz que não cometeu qualquer crime. O recurso do seu advogado, com mais de 50 páginas, foi ontem entregue no Tribunal Central de Instrução Criminal e contesta a qualificação dos indícios feita pelo Ministério Público e juiz de instrução.

O advogado Ricardo Candeias garante que o objetivo é que o processo contra o seu cliente seja arquivado. Para já, o ex-motorista de Sócrates apenas contesta os indícios, já que a medida de coação - neste momento, prisão domiciliária - foi alterada na última terça-feira. Correm ainda prazos para ser interposto recurso sobre esta matéria. Recorde-se que a 'colaboração' de João Perna abriu-lhe as portas da cadeia. Em prisão preventiva durante mais um mês, o ex-motorista se que queria ser ouvido e poucos dias depois viu a medida de coação ser reduzida.

João Perna assumiu que passou dinheiro nas contas e que as quantias lhe foram entregues por Carlos Santos Silva e se destinavam ao seu patrão José Sócrates. Negou a prática de qualquer crime, assegurando que apenas cumpria ordens.

Eduardo Dâmaso | Correio da Manhã | 28-12-2014