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REVISTA DE 2014

Escutas a Sócrates: “Eles não têm coragem de me prender”

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José Sócrates sabia que estava a ser investigado, mas desvalorizava a hipótese de ser preso. Segundo as escutas realizadas, Sócrates terá dito que iria mobilizar a opinião pública contra a Justiça.

Apesar das notícias que começavam a surgir na imprensa durante o verão e que davam conta de que estariam em curso investigações sobre o alegado esquema de corrupção, fraude e branqueamento de capitais que o ligava a Carlos Santos Santos Silva, a João Perna e a Gonçalo Trindade, José Sócrates – como em tempos se descreveu – acreditava que não corria o risco de ser, efetivamente, preso. "Eles não têm coragem de me prender", terá dito Sócrates a Carlos Santos Silva, de acordo com o Correio da Manhã, citando as escutas telefónicas que estão na base da "Operação Marquês".

De acordo com a mesma publicação, o antigo primeiro-ministro sabia que estava a ser investigado, apesar de na altura ter refutado todas as notícias que iam nesse sentido. No seu espaço de comentário na RTP, o antigo secretário-geral do Partido Socialista chegou mesmo a descrevê-las "como uma verdadeira canalhice" e como "uma campanha de difamação".

Sabe-se, agora, que José Sócrates terá sido confrontado no primeiro interrogatório com as conversas que manteve com os amigos ao longo dos meses em que esteve sob escuta. Nelas, e segundo o CM, ironizava sobre o processo, criticava abertamente os magistrados do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e terá, mesmo, ameaçado mobilizar a opinião pública contra a Justiça.

Terá sido o comportamento do antigo primeiro-ministro ao longo da investigação e o teor dos comentários tecidos que ajudaram a fundamentar a decisão de deter e, posteriormente, aplicar a medida de coação de prisão preventiva: os magistrados do DCIAP e o juiz Carlos Alexandre acreditavam que o socialista poderia interferir no inquérito em curso e tentar fugir do país, caso se apercebesse que corria risco real de ser preso.

Já depois da detenção de João Perna, o antigo primeiro-ministro terá sido escutado a pedir a Daniel Proença de Carvalho, presidente da Controlinveste, para que arranjasse um advogado do seu escritório para defender o motorista, que transportaria o dinheiro até José Sócrates, quando este residia em Paris.

O socialista terá estado sob escutas telefónicas desde o final de 2013 até ao dia da sua detenção no aeroporto de Lisboa. Concretamente, foram ouvidas centenas de horas de conversação entre o recluso número 44 do Estabelecimento Prisional de Évora e vários dos seus contactos pessoais – incluindo outros agentes políticos – e profissionais.

José Coelho/Lusa | Observador | 16-12-2014

Comentários (2)


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O que é relevante neste caso da operação Marquês é saber se um ex-primeiro ministro cometeu os crimes pelos quais está indiciado. Porque se os cometeu, e são crimes umbilicalmente ligados ao exercício do poder político, então é uma revelação que muda tudo. Desde a actuação dos partidos políticos, até às miriades de comentadores políticos que devem gostar muito de Sócrates porque sempre o defenderam de cada vez que vinham à tona indícios de crimes, golpadas, vigarices, mentiras, etc, passando por quem acreditou nele e votou nele, muita gente tem de pintar a cara de preto. Sobretudo os comentadores, o meu ódio de estimação, confesso que me dava um gozo especial vê-los com a fronha em breu, pelo ar douto e superior com que defendiam o homem de tudo aquilo que agora está quase confirmado.
No meio disto tudo, as fugas ao segredo de justiça são um pequeno pormenor.
E como se diz e bem no artigo de Maria José Morgado foi o governo do recluso 44 que alterou o código de forma a abolir tendencialmente o segredo de justiça.
Não deixa de ser chocante que o público em geral saiba estes pormenores tão importantes da investigação que deveriam estar em segredo.
Mas o recluso 44 será o último a ter legitimidade para protestar com isso.
Hannibal Lecter , 16 Dezembro 2014 - 10:42:30 hr.
...
Aguardemos o resultado de um inquérito tão truncado ao arguido. Para todos os efeitos, ele foi proibido de falar....
cblue , 16 Dezembro 2014 - 21:07:29 hr.

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