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REVISTA DE 2014

Sócrates: "Silêncio. As instituições estão a funcionar"

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José Sócrates voltou a escrever. O antigo primeiro-ministro enviou uma nova missiva à comunicação social, desta vez ao Diário de Notícias (DN), e não se poupa a críticas a personalidades às quais aponta o dedo. Ironizando com a tese de que "as instituições estão a funcionar" – frase dita pelo Presidente Cavaco Silva – o antigo governante usa a Filosofia para dizer ainda que o "sistema vive da cobardia dos políticos".

Na falta de voz, faz uso da escrita. O antigo primeiro-ministro emitiu a sua terceira missiva, dirigida desta vez ao Diário de Notícias, e não deixou de apontar o dedo aos vários agentes que opinam sobre a sua detenção.

O 'recluso 44' do Estabelecimento Prisional de Évora fez chegar ao Diário de Notícias (DN), um texto no qual fala da "prisão preventiva" e do "segredo de justiça", tecendo severas críticas à justiça e autoridades, e também aos jornalistas e políticos.

"Da prisão preventiva", escreve Sócrates na primeira parte da sua carta, "prende-se para melhor investigar. Prende-se para humilhar, para vergar. Prende-se para extorquir, sabe-se lá que informação. Prende-se para limitar a defesa: sim, porque esta pode 'perturbar o inquérito'".

Para José Sócrates, "prende-se principalmente para despersonalizar. Não, já não és um cidadão face às instituições; és um 'recluso' que enfrenta as 'autoridades: a tua palavra já não vale o mesmo que a nossa". "Mais que tudo – prende-se para calar", redige o ex-governante, ironizando, de seguida, com as palavras já proferidas por Aníbal Cavaco Silva sobre este caso: "As instituições estão a funcionar".

Na segunda parte da carta, Sócrates foca-se no "segredo de justiça", condição que, no seu entender, "só a defesa está obrigada a cumprir". E aqui começam as críticas aos jornalistas, sem mencionar nomes, que "fazem o trabalho para eles".

O antigo chefe de Governo aproveita também a oportunidade para criticar a forma como a justiça – e mais uma vez -, a comunicação social têm atuado: "toma lá informação, paga-me com elogios. Dizem-lhes o que é crime conhecerem, eles compensam-nos com encómios; magnífico juiz; prestigiado procurador; polícia dedicado e competente".

"Lado oculto e podre, é certo", afirma. "Mas há quanto tempos o conhecemos?", questiona, retoricamente, o também filósofo, deixando a resposta na "intimidação e na cumplicidade". "Há quanto tempo sabemos que a impunidade de quem comete esses crimes está sustentada na intimidação e na cumplicidade? Sim, na intimidação, desde logo".

"E sabemos como pesa a simples notícia de que se está sob investigação", lamenta Sócrates. Mas a cumplicidade é ainda julgada: "Digamo-lo sem rodeios: o 'sistema' vive da cobardia dos políticos, da cumplicidade de alguns jornalistas; do cinismo das faculdades de Direito e do desprezo que as pessoas decentes têm por tudo isto".

"De resto basta-lhes dizer: 'Deixem a justiça funcionar'. Sim, não se metam nisto. É verdade que, há muito, alguns desafiam o sistema e dizem abertamente que a justiça foi ultrapassada. Bem o vemos. Mas, e se foi ultrapassada por aqueles a quem confiamos a nossa liberdade? Sim – pergunta clássica – quem nos guarda dos nossos guardas?", questiona Sócrates, respondendo logo de seguida com ironia: "Silêncio. 'As instituições estão a funcionar'".

O DN dá ainda conta, na edição desta quinta-feira, que o ex-primeiro-ministro está também indiciado pelo crime de corrupção ativa. Sócrates é suspeito de ter oferecido vantagens financeiras, ou outras, a determinadas pessoas depois de já ter exercido o cargo de chefe de Governo. De acordo com a publicação, Sócrates é suspeito de receber e dar 'luvas'.

Notícias ao Minuto | 04-12-2014


 
A carta de José Sócrates na íntegra

«Prende-se para melhor se investigar. Prende-se para humilhar, para vergar. Prende-se para extorquir, sabe-se lá que informação. Prende-se para limitar a defesa: sim, porque esta pode "perturbar o inquérito". Mas prende-se, principalmente, para despersonalizar. Não, já não és um cidadão face às instituições; és um "recluso" que enfrenta as "autoridades": a tua palavra já não vale o mesmo que a nossa. Mais que tudo - prende-se para calar. E - suprema perfídia - invoca-se, para assim proceder, as regras do Direito, a legitimidade da democracia. "As instituições estão a funcionar."

E do segredo de justiça. Prende-se, também, de uma outra forma - na prisão da opinião pública. Sim, há o segredo de justiça, mas esse só a defesa está obrigada a cumpri-lo. Nem precisam de falar - os jornalistas (alguns) fazem o trabalho para eles. Toma lá informação, paga-me com elogios. Dizem-lhes o que é crime conhecerem, eles compensam-nos com encómios: magnífico juiz; prestigiado procurador; polícia dedicado e competente. Lado oculto e podre, é certo. Mas há quanto tempo o conhecemos? Há quanto tempo sabemos que a impunidade de quem comete esses crimes está sustentada na intimidação e na cumplicidade? Sim, na intimidação, desde logo. O recalcitrante sabe que arrisca uma campanha negativa na imprensa, senão mesmo uma investigação. E sabemos como pesa a simples notícia de que se está sob investigação.Mas, também, a cumplicidade. Digamo-lo sem rodeios: o "sistema" vive da cobardia dos políticos, da cumplicidade de alguns jornalistas; do cinismo das faculdades e dos professores de Direito e do desprezo que as pessoas decentes têm por tudo isto. De resto, basta-lhes dizer: "Deixem a justiça funcionar." Sim, não se metam nisto. É verdade que, há muito, alguns desafiam o sistema e dizem abertamente que a justiça foi ultrapassada. Bem o vemos. Mas, e se foi ultrapassada por aqueles a quem confiamos a nossa liberdade? Sim - pergunta clássica - quem nos guarda dos guardas? Silêncio. "As instituições estão a funcionar."»

Diário de Notícias | 04-12-2014


 
Sócrates está em pânico

"José Sócrates está em pânico". É esta a análise imediata do psicografólogo Luís Philippe Jorge ao pegar na carta escrita à mão pelo ex-primeiro-ministro, detido em prisão preventiva.

"A letra diz-me que é uma pessoa em quem não posso confiar. Não é autêntica e transparente", garante o especialista consultado pelo CM. Ao analisar as três páginas A4, Luís não tem dúvidas.

A caligrafia esticada e deformada mostra um recluso "com medo, ansioso e sob uma forte ameaça". As cartas foram escritas a vermelho, o que revela "que Sócrates está efervescente." "Ele tenta mostrar calma e serenidade, mas a letra não mostra isso. Ele está aflito", acrescentou.

Nuno de Sousa Moreira | Correio da Manhã | 05-12-2014


Comentários (1)


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Vive da cobardia dos politicos que não deram seguimento ao pacote Cravinho contra a corrupção e que se recusam a discutir e aprovar medidas como o enriquecimento ilicito, como Rui Rio na última entrevista. Não é oportuno. Nunca é. Para alguns nunca será.
Valmoster , 04 Dezembro 2014 - 17:53:54 hr.

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