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REVISTA DE 2013

Solução europeia para sair da crise está a "varrer a população"

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O economista dominicano Miguel Ceara declarou à Lusa que a solução europeia para resolver a crise de dívida está a "varrer a população", considerando que "o que está a acontecer é uma deterioração das condições de vida das pessoas".

Miguel Ceara comentava, em declarações à agência Lusa, o relatório 'A cautionary tale: The true cost of austerity and inequality in Europe' ('Um conto moral: o verdadeiro custo da austeridade e da desigualdade na Europa'), hoje publicado pela Oxfam, em que a organização alerta para que, se prosseguirem as medidas de austeridade na Europa, podem cair em situações de pobreza mais de 15 a 25 milhões de pessoas até 2025.

Especialista nas crises económicas da América Latina nas décadas de 1980 e 1990, Miguel Ceara disse que "os programas de ajustamento estrutural condenam as populações a maiores níveis de pobreza e de precariedade e não se consegue uma reestruturação da economia".

"Pode-se sair da crise mantado os pobres, mas essa não é a ideia. O que está a ocorrer na Europa é deteriorar as condições de vida das pessoas, literalmente. É óbvio que, se a economia cai durante uma década ou duas, há uma recuperação depois, mas essa transição implica que muita gente perda recursos e criam-se desigualdades", explicou.

Reiterando que "o objetivo das economias é que as pessoas vivam bem e não que os bancos sejam mais ricos", o também antigo diretor do programa de desenvolvimento das Nações Unidas na República Dominicana reconheceu que há um problema de dívida para resolver, mas defendeu que a solução não pode condenar a qualidade de vida das pessoas.

"A solução [que a Europa encontrou] foi comprimir a economia até a um ponto em que se gere um excedente para pagar a dívida. Mas isso significa que se está a varrer a população e esse é o erro: condenar um país a 15 ou 20 anos de precariedade. Há que fazer uma negociação e conseguir que parte dessa dívida seja perdoada", considerou.

No entanto, alertou que tudo isto "depende das relações de força" política, uma vez que, "tecnicamente, está muito claro que a solução que alguns grupos de poder mais forte na Europa escolheram [para resolver a crise atual] condena a população".

Comparando a situação atual da Europa com a da América Latina na década de 1980, Miguel Ceara identificou duas diferenças fundamentais que fazem com que a situação europeia seja "mais difícil": a Europa "não pode desvalorizar a moeda" e, na altura [1980], os países latino-americanos tinham "um cenário internacional menos rígido".

Isto quer dizer que hoje, sem política cambial e com um cenário mundial que também está em crise, a Europa está numa situação "mais difícil" do que estava a América Latina nos anos 1980 e 1990, uma vez que tem de "fazer todo o ajustamento do lado do consumo e da procura interna".

No relatório hoje divulgado, a Oxfam refere que "a Europa devia aprender duas lições importantes com as crises de dívida anteriores noutras regiões: que uma dívida insustentável é uma dívida impagável, que exige um processo de arbitragem justo e transparente que possa incluir uma reestruturação alargada ou o cancelamento da dívida, e que quanto mais cedo a espiral de crescimento da dívida for atacada pelos Estados-membros e pela União Europeia melhor".

A organização fundada em 1995 faz ainda quatro recomendações aos governos europeus: investir nas pessoas e no crescimento económico, investir nos serviços públicos, reforçar a democracia institucional e construir sistemas fiscais justos.

Notícias ao Minuto | 12-09-2013

Comentários (2)


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José Pedro Faria (Jurista) - Vale tudo?
Por qualquer motivo surge nesta notícia o nome "Miguel Ceara", esquecendo o nome de família do entrevistado: Hatton.

Miguel Ceara Hatton (talvez mais conhecido por Ceara Hatton) não é um economista qualquer, é um reputado intelectual dominicano, autor de inúmeras obras na área da economia, uma voz conhecida nas Américas e que já ocupou cargos que lhe permitem possuir uma visão abrangente da economia mundial.

Ceara Hatton vem, com muita simplicidade, e com a autoridade e a respeitabilidade que possui, tecer considerações que coincidem no seu espírito, com algumas que já foram expendidas neste sítio.

A principal conclusão é a de que não vale tudo. Há muitas formas de se resolver os problemas, mas, infelizmente, nem todas são aceitáveis.

Não se resolve uma epidemia entre humanos mandando abater todos os infetados. Não se combate o problema do envelhecimento da população lançando os idosos num vazadouro. Não se resolve o problema da baixa produtividade obrigando as pessoas a trabalhar 24 horas por dia. Não se resolve o problema da falta de competitividade pagando apenas uma sopa por dia aos trabalhadores.

Enfim, não se resolve um problema que os políticos e os financeiros criaram, condenando povos inteiros à miséria e à fome.

O interessante estudo da ONG Oxfam pode ser encontrado neste PDF: http://www.oxfam.org/sites/www...3-en_1.pdf

Recomendo a leitura atenta das alternativas às políticas de austeridade cegas e estúpidas que tombaram sobre a Europa, e que fingem esquecer o resultado desastroso dessas políticas por todo o mundo, designadamente na América Latina, no Sudoeste asiático e em África.

Interessantes são igualmente as declarações de Natalia Alonso, responsável pelo Oxfam’s EU Office. Saliento, entre outras, a seguinte:

“The only people benefiting from austerity are the richest 10% of Europeans who alone have seen their wealth rise. Greece, Ireland, Italy, Portugal, Spain and the UK – countries that are most aggressively pursuing austerity measures - will soon rank amongst the most unequal in the world if their leaders don’t change course. For example, the gap between rich and poor in the UK and Spain could become the same as in South Sudan or Paraguay.”

Mais palavras para quê?

Claro que os governantes europeus não desconhecem esta realidade, mas como se enquadram no seleto grupo dos 10% estão muito pouco preocupados com as consequências catastróficas das suas políticas. Só pararão se compreenderem que as mesmas voltem voltar-se contra eles de alguma forma; e como isso não é previsível de momento, funciona a única mentalidade que eles conhecem: a de curto prazo, a de vistas curtas. Mas...
José Pedro Faria (Jurista) , 12 Setembro 2013
Ideias novas
Infelizmente estamos a chegar a um ponto em que as solução habituais já não funcionam. Tal como demonstrado no livro "O 8º Dia" (www.uniorder.org). O mundo mudou e, agora, precisamos de ideias novas para sairmos do buraco onde nos metemos.
Manuel Silva , 20 Setembro 2013 | url

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