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REVISTA DE 2012

Passos gestor de empresa que dominou fundo gerido por Relvas

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A Tecnoforma, uma empresa de que Passos Coelho foi consultor e administrador, dominou por completo, na região Centro, um programa de formação profissional destinado a funcionários das autarquias que era tutelado por Miguel Relvas, então Secretário de Estado da Administração Local.

Os números são esmagadores: só em 2003, 82% do valor das candidaturas aprovadas a empresas privadas na região Centro, no quadro do programa Foral, coube à Tecnoforma. E entre 2002 e 2004, 63% do número de projectos aprovados a privados pelos responsáveis desse programa pertenciam à mesma empresa.

Ao nível do país, no mesmo período, 26% das candidaturas privadas que foram viabilizadas foram também subscritas pela Tecnoforma.

Miguel Relvas era então o responsável político pelo programa, na qualidade de secretário de Estado da Administração Local de Durão Barroso, Paulo Pereira Coelho era o seu gestor na região Centro, Pedro Passos Coelho era consultor da Tecnoforma, João Luís Gonçalves era sócio e administrador da empresa, António Silva era seu director comercial e vereador da Câmara de Mangualde. Em comum todos tinham o facto de terem sido destacados dirigentes da JSD e, parte deles, deputados do PSD.

O programa Foral foi lançado por António Guterres em 2001, com dinheiro do Fundo Social Europeu e do Estado português. E ao longo dos cerca de seis anos da sua execução absorveu cerca de 100 milhões de euros.

Os principais beneficiários foram, de longe, os 278 municípios do Continente, numerosas juntas de freguesia, associações de municípios, empresas municipais, sindicatos, associações profissionais e outras entidades sem fins lucrativos.

As empresas privadas que actuam no mercado da formação profissional, e que ao tempo eram alguns milhares, também podiam apresentar candidaturas – com base em protocolos previamente celebrados com as autarquias – mas a sua parte no bolo global foi sempre diminuta. Foi nesse contexto, o das empresas privadas, que a Tecnoforma conseguiu a parte de leão do negócio.

Favorecimento? "Um absurdo", diz Passos Coelho

Tanto Passos Coelho, como Miguel Relvas e os actuais e antigos responsáveis da Tecnoforma negam que esta tenha beneficiado de alguma espécie de favorecimento devido às ligações políticas existentes entre os intervenientes.

Passos Coelho disse mesmo ao PÚBLICO, que essa ideia é um "absurdo". E o presidente do Conselho de Administração da empresa, um empresário que já desempenhava essas funções entre 2002 e 2004, garante que até "já perdeu contratos por dizerem que a Tecnoforma é do Passos Coelho".

O actual primeiro-ministro, que assegura nunca ter sido accionista da empresa, omite, porém, nos seus currículos que foi administrador desta entre 2005 e 2007. Ao PÚBLICO garantiu várias vezes que se desligou dela em 2004, admitindo que a tinha gerido por um "período não muito longo" em 2003 e 2004. No entanto, em 2007 ainda geria a empresa. Em Agosto passado ainda estava em vigor uma procuração dos seus donos que lhe permitia administrá-la.

Confrontado com esses factos, Passos Coelho manifestou-se extremamente surpreendido, afirmando, depois de os confirmar, que se tratava de um "engano" seu.

Procuração revogada em Agosto de 2012

Quanto à procuração, considerou também um "absurdo" o facto de ela não ter sido revogada, como disse ter pedido expressamente à empresa. No dia 29 de Agosto passado, depois de Passos Coelho ser questionado pelo PÚBLICO sobre o assunto, a procuração foi formalmente revogada pela Tecnoforma.

A eventualidade de uma empresa a que Passos Coelho esteve ligado ter sido favorecida no quadro do programa Foral foi sugerida em Junho por Helena Roseta, antiga presidente da Ordem dos Arquitectos.

José António Cerejo | Público | 08-10-2012

Comentários (8)


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QUAL FAVORECIMENTO? !!!
"... só em 2003, 82% do valor das candidaturas aprovadas a empresas privadas na região Centro, no quadro do programa Foral, coube à Tecnoforma."

SÓ 82% ? E as más linguas ainda dizem que houve FAVORECIMENTO ?

Então e os OUTROS 18% ???
Desses não querem falar ! Não é?
Esses 18% é que foram favorecidos! Não tiveram a canseira de trabalhar tanto!
Kill Bill , 08 Outubro 2012
...
É IMPRESSIONANTE como os jornalistas portugueses se ficam pelo acessório, mesmo quando o essencial se lhes mete pelos olhos dentro.
O exemplo de plutocracia aqui presente não tem PPC como principal actor, como o homem que manipula isto tudo.
Ele é um simples figurante.
O padrinho é aqui, como em muito mais, A.Correia, essa “eminência parda” do sistema político português, exemplo patente dos verdadeiros titulares do poder político em Portugal (entre outros, como A.Santos).
Frei, tomas? , 08 Outubro 2012 | url
Alguém estranha?
Isto é dejá vu.

Há muitos anos que os nossos governantes andam a governar os amigos deles, que os hão-de governar a eles depoisde saírem do governo. É vergonhoso, é certo, mas é real.
Esta gente não tem vergonha na cara.
Se calhar os paisinhos nunca lhes disseram que o bom nome deles e honra da família é muito mais importante que tudo o resto.

Mas levanta-se outra questão.

Onde andava este e outros jornalistas naquela "fase de construção" dos personagens que irão ocupar o poder?
Os candidatos não caem de pára-quedas, são feitos, fabricados, usinados, talhados, como se queira dizer, por muita gente da comunicação social, com participação especial das TVs, que sabem e podiam (deviam) escrutinar o passado dos mesmos, as suas competências, os bons resultados obtidos equanto profissionais, etc, e passar isso ao povo para este decidir.
Mas não, calam os factos e aquilo que sabem e só os usam quando os políticos entram na fase da decadência e, não todos, mas alguns percebem que não colhem e já não vão colher as simpatias desses políticos.
DEpois é um ver se te avias dos nossos brilhantes jornalistas a botar cá para fora o muito que sabem há muito tempo. São coniventes com esta forma de promover gente de pacotilha e de crâneo vazio a governantes, tal como se faz com a pasta dentífrica, pensos higiénicos, preservativos, etc.
Um ressabiado , 08 Outubro 2012
...
Quando um tipo começa a responder a acusações com frases do tipo "Isso é absurdo" é muito mau sinal.
Qualquer dia insinuam que o Miguel Relvas e o Passos Coelho têm vagina e mamas e são amantes, e eles, em vez de dizer que não, dizem que é um absurdo. O melhor é nunca lhes perguntarem isso. Há coisas que é melhor não saber.

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Herr Flick von GESTAPO , 08 Outubro 2012
...
Ao pé desta camarilha (Relvas, Passos, Ângelos, etc) ainda vamos chegat à conclusão de que o Engenhocas domingueiro Zé da Beira é um menino do couro...
Zeka Bumba , 08 Outubro 2012
...
Sim, é um absurdo. Direi mais: é o total de 82% de absurdo... Isto cada vez cheira mais a final d efesta.
Jesse James , 09 Outubro 2012
...
Gente de memória curta e curso na gaveta. Nunca ouviram falar em "crime impossível"? Nem com a garantia superiormente dada de que não há corrupção política em Portugal são capazes de se deixar de insinuações malévolas?
Por minha parte, seguro de que o crime de corrupção em Portugal é um crime impossível, gostaria de saber que formação especial terá sido dada aos funcionários das autarquias e donde sairam os formadores. Acho curioso que possa haver uma formação generalizada aos militantes de todos os partidos com responsabilidades nas autarquias. Soube, pela leitura de jurisprudência do Tribunal de Justiça da UE, que, em tempos, no auge do desbaratar das ajudas comunitárias para a formação profissional, uns talhantes resolveram dar formação em informática, constituindo uma sociedade formadora. Como as facas e serras de cortar carne não davam geito, constituiram outra para fornecer à formadora, em aluguer, o material informático adequado na forma, independentamente do seu estado. Como não há formação sem formadores, constituiram uma terceira sociedade de formadores que os fornecia, pagos à hora, à primeira. Na cúpula uma sociedade independente de "monitorização" de formação profissional em informática. Toda esta engrenagen justificava os muitos milhões concedidos à sociedade formadora, à custa da CEE, claro. A Comissão achou demasiada a pouca vergonha e quis o dinheirinho de volta, pelo menos algum. Dos documentos fornecidos resultava, ao que se lia, que os sócios das ditas sociedades eram os talhantes, que acumulavam funções de formadores e de "monitorizadores" da qualidade da formação. Isto é que se chama empreemdorismo à portuga e resulta limpo como água destilada. Sejamos optimistas. O Governo sabe para onde vai. Nós é que não sabemos para onde ele nos levará. Perdão. Eu sei e já o dissse. Não vou repetí-lo para não beliscar a coesão social e deslustrar o exemplo que somos como alunos do quadro de honra da escola internacional de resgates da Troika. Passem todos muito bem que o que se passa comigo não tem importância alguma.
Barracuda , 09 Outubro 2012 | url
...
Infelizmente não acredito que quem de direito averigue estes indícios que se metem pelos olhos dentro...
Indignado , 09 Outubro 2012

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