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REVISTA DE 2012

Austeridade faz crescer distância entre políticos e cidadãos

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Contestação. Aos primeiros protestos, os governantes ainda se dirigiam aos manifestantes. Hoje, com o cerco a apertar-se, preferem espaços de confiança a sair à rua

É a crise que faz aumentar a distância entre a classe política e os cidadãos em Portugal. Esta convicção de António Costa Pinto traduz-se "em muito poucos incidentes na democracia" portuguesa, como recorda ao DN. "Essa maior distância, vide maior segurança, no caso português, é muito mais identificada com a crise", aponta o politólogo. E à medida que a crise se foi agudizando, com o anúncio sucessivo de medidas de austeridade e cortes de salários e aumentos de impostos, a raiva da rua cresceu.

Aos primeiros insultos e apupos, o Governo ofereceu algum corpo ao manifesto. A 19 de fevereiro, Passos Coelho saía ao encontro de manifestantes em Gouveia, por oposição a Cavaco Silva, que três dias antes tinha feito marcha atrás quando se dirigia para a Escola António Arroio, em Lisboa, e soube que os alunos preparavam uma manifestação para o receber (para denunciar as condições da escola). Na feira do Queijo da Serra, Passos ouviu quem se insurgia contra o FMI e a "injustiça social", as portagens nas ex-Scut e os despedimentos na Peugeot-Citroën. O primeiro-ministro explicava-se aos jornalistas: "Gosto de estar ao pé das pessoas para lhes dizer que sei bem quais são as dificuldades dessas pessoas."

As dificuldades do Governo também foram em crescendo até à atual "fuga" ao cerco que é preparado a cada visita de um governante. Por isso, Costa Pinto acha "muito difícil" que Passos Coelho e os seus ministros respondam positivamente ao desafio de Marcelo Rebelo de Sousa de saírem à rua e enfrentarem a contestação popular. "É interessante dizê-lo, mas é muito difícil fazê-lo", aponta. Para notar que, por causa da crispação, os políticos acabam por se encerrar em "espaços de confiança" que são os da "mobilização partidária", mais controlados. "A classe política não arrisca", diz.

Também Marina Costa Lobo, politóloga, fala de uma "atitude" que "reflete um mal-estar crescente entre políticos e sociedade, que poderá ser resolvido através de uma remodelação governamental ou outras medidas que transmitam ao eleitorado que o Governo está atento à situação que se vive no País". Mas, "paradoxalmente", sublinha ao DN, "o clima de crispação social também prejudica as probabilidades de uma remodelação bem-sucedida".

Com ou sem remodelação, a hostilidade aos membros do Executivo deixou de ser uma marca registada da oposição mais à esquerda (forças partidárias e sindicais): Santos Pereira foi recebido em junho na Covilhã, com apupos de sindicalistas, que chegaram a travar o carro oficial. Passos enfrentou as vaias de professores em Cantanhede, em agosto, que nem a fanfarra dos bombeiros abafou. Mota Soares foi vaiado na única autarquia CDS do País, Ponte de Lima, por duas vezes no mesmo dia. E Miguel Macedo, depois de atualizar a fábula da cigarra e da formiga à crise portuguesa, escapou pela porta dos fundos aos protestos de "utentes das autoestradas" na inauguração de um quartel de bombeiros em setembro, deixando a placa por descerrar.

"Mesmo em segmentos que não têm um ativismo político e sindical" cresceu um sentimento contra os políticos, não apenas contra os governantes, anota Costa Pinto. Manifestando um "receio real", como diz o politólogo, o Governo por estes dias parece fazer jus ao mote atribuído a Ricardo Araújo Pereira. "Sempre do lado do povo, nunca no meio do povo."

Segurança dos ministros desvia patrulhas

Ameaça Receando agressões ou ser atacados com ovos ou legumes, os ministros seguem à risca as instruções de segurança da PSP, quando participam em eventos públicos Cada vez que um membro do Governo, principalmente se for um ministro, informa um comando distrital da PSP sobre uma sua deslocação prevista para essa cidade, são mobilizados para a sua segurança meios que, normalmente, estariam afetos à segurança da população e patrulhamentos de prevenção da criminalidade.

Além do aumento do grau de ameaça que o Serviço de Informações e Segurança (SIS) atribuiu a grande parte destes responsáveis políticos – que passaram do habitual nível 4, moderado, para o 3, significativo -, está determinada para a generalidade dos políticos a letra "Z", zulu, de ameaça. Esta é utilizada quando há ameaça de atos hostis contra uma alta entidade sem pôr em causa a sua vida. São exemplos destas ações os empurrões ou o lançamento de objetos, como legumes, detritos e tinta.

"Perante este cenário", explicou ao DN uma fonte policial envolvida na segurança governamental, "quando há visitas e são previsíveis ações de protesto, os comandantes distritais mobilizam todos os meios disponíveis para garantir a proteção da entidade e o sucesso do perímetro de segurança". No entanto, sublinha esta fonte, "em cidades mais pequenas, como já tem acontecido, isso implica desviar para essa missão praticamente todo o efetivo disponível nesse turno, o que deixa a descoberto todo o restante trabalho de policiamento".

Nas últimas semanas as situações de ameaça sobre membros do Governo e políticos têm-se sucedido. Não deixa de ser simbólico o facto de, segundo apurou o DN, pela primeira vez o comandante da Unidade Especial de Polícia, da PSP, ter participado na reunião de preparação de segurança para a cerimónia do dia 5 de Outubro, onde acabou por haver um incidente com uma mulher desempregada.

Várias fontes policiais admitem que há uma grande preocupação e receio por parte dos ministros, sempre que têm cerimónias públicas. "Seguem à risca às nossas instruções e consultam-nos como nunca antes o faziam", confidenciou ao DN um oficial da PSP. Estarevelação é, no entanto contrariada por uma outra fonte, governamental. "Ninguém anda assustado, nem preocupado e muito menos algum ministro pede mais ou menos segurança. O grau de ameaça é atribuído pelo SIS e as forças policiais locais destacam o efetivo que consideram adequado". As agendas dos ministros estão a ser enviadas com antecipação para as polícias para que façam um reconhecimento prévio de todos os percursos.

Turbulenta história do povo de 'brandos costumes'

Violências "Matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acudi ao Mestre, que o matam! (...) As gentes que isto ouviam saíam à rua a ver que cousa era. E, começando a falar uns com os outros, alvoroçava-se-lhes o coração, e começavam a tomar armas cada um como melhor e mais depressa podia." A Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, contraria a tese salazarista do "povo de brandos costumes".

Da minhota revolução oitocentista da Maria da Fonte ao cerco dos operários à Assembleia Constituinte no Verão Quente de 1975, da guerra civil entre liberais e miguelistas aos massacres na guerra colonial, dos trauliteiros das incursões monárquicas aos julgamentos populares da revolução, dos fazedores de bombas contra a monarquia à repressão durante o fascismo, a História de Portugal está recheada de episódios violentos. Só no século XX, foram assassinados o rei D. Carlos (1908), o presidente Sidónio Pais (1918) e o primeiro-ministro António Granjo (1921), enquanto Salazar saiu ileso de um atentado à bomba (1937), Pinheiro de Azevedo foi cercado em S. Bento (1975) e ainda há quem desconfie de que Sá Carneiro foi vítima de um atentado (1980). A relação entre o povo e os políticos, após o 25 de Abril, também nem sempre foi tão serena como se pretende fazer crer, do cerco ao congresso do CDS no Porto, em 1975, até ao ataque às sedes do PCP, no mesmo ano, dos tiros contra a caravana de Ramalho Eanes em Évora, em 1976 (ver foto), à tentativa de agressão a Mário Soares na Marinha Grande, em 1985 (ver foto), das bombas do ELP e do MDLP contra o gonçalvismo aos atentados das FP-25 contra os governos de direita, dos mortos no 1.° de Maio de 1982 ao bloqueio da ponte em 1994. Por vezes, contrariando a afirmação que parece ter-se transformado em quase adágio popular, mais parecemos "um povo de brutos costumes".

Miguel Marujo, Valentina Marcelino e Fernando Madaíl
Diário de Notícias | 10-10-2012

Comentários (2)


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É assim....
Violência não. Defender os direitos sim. Falar, criticar, expor ideias e mudar. Fazer com que percam a legitimidade sim, sempre com elevação. Se não gostam de ouvir e reagem com violação de direitos perdem toda a legitimidade. As pessoas não podem descer ao baixo nível de quem está no poder agarrado aos cargos para aceder a mais um ou outro. Não podemos é ficar indiferentes á defesa de direitos pois isso implica concluir que não vivemos numa democracia por alguns não estarem interessados nisso. Não ao passado e não á ditadura. Não podemos caminhar para uma espécie de Paquistão onde uma rapariga de 14 anos que defendia o seu direito a ir á escola e aprender foi perseguida e deram-lhe um tiro na cabeça por falar... O mundo espelha a misera total que está na cabeça do ser humano. Um horror.
Menina de Laçarotes , 10 Outubro 2012
...
Desconfio que, brevemente, a distância vai é diminuir drasticamente entre algum cidadão e algum político, sobretudo para desgraça deste último...
Zeka Bumba , 10 Outubro 2012

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