Grã-fuga interna

Líderes do GOL afirmam ao i que o acesso a esses dados é ilegítimo, existindo suspeitas sobre ex-candidatos a grão-mestre. Apesar de a lista dos nomes ter sido publicada por todos os sites de órgãos de comunicação social durante o dia de ontem, a Procuradoria-Geral da República diz não ter "conhecimento oficial" das mesmas

A divulgação de quase 1500 nomes de maçons na internet é caso inédito na história da maçonaria em Portugal. Ex-grão-mestres e maçons do Grande Oriente Lusitano (GOL) contactados pelo i desconfiam de uma infiltração no sistema informático.

"Houve, porventura, uma intrusão e uma infiltração no GOL para ter acesso a dados com objectivos censuráveis", afirma ao i António Amaut, ex-grão-mestre.

A opinião é partilhada por António Reis, outro ex-grão-mestre do GOL: "Houve alguma intrusão no sistema informático. Há sempre gente que não respeita os outros e as regras e pode ter tido um acesso ilegítimo a dados."

Vasco Lourenço, capitão de Abril e maçon assumido, acredita que poderá ter sido uma "tentativa de vingança mesquinha". "A lista é antiga e provavelmente quem a difundiu já não é maçon", refere.

Arnaut e António Reis também confirmam que a lista "está incompleta". A lista onde constam 1438 nomes, até à letra M – que inclui políticos, banqueiros, jornalistas, académicos e advogados -, revela a relação entre os maçons e as lojas a que pertencem, mas está desactualizada Nela ainda constam nomes de pessoas que já faleceram há vários anos e "alguns nomes que já não pertencem à maçonaria", diz um membro do GOL. A divulgação na internet foi feita através de um comentário no blogue "Casa das Aranhas" (ver caixa). O i tentou contactar o actual grão-mestre sem sucesso até ao fecho desta edição.

ACESSO RESTRITO
Não são todos os maçons que têm acesso à lista com os nomes que pertencem à organização." Só o grão-mestre", diz ao i um membro do GOL, lembrando, porém, que na altura das eleições internas todos os candidatos a grão-mestre podem ter acesso aos ficheiros com os membros da organização.
No GOL existe um cofre com documentos secretos como, por exemplo, a "lista negra" dos maçons que foram irradiados.
Um dos princípios desta organização é que nenhum maçon pode revelar o nome de outro.
Em regra, os membros do GOL têm facilmente conhecimento dos "irmãos" que pertencem à , organização. Por exemplo, quando alguém entra para a maçonaria, o seu nome é afixado em todas as lojas para saber se há alguma objecção.
António Reis não tem dúvidas: houve uma "violação da privacidade" com a divulgação desta lista. Já António Arnaut fala em "intromissão condenável na vida interna da maçonaria", enquanto Vasco Lourenço lembra que "a Maçonaria também tem pessoas que não deveriam estar lá dentro". "Não têm perfil", garante.

"CASA DAS ARANHAS"
Foi no blogue "Casa das Aranhas" que a lista foi divulgada no dia 1 de Agosto, mas só agora veio a terreiro devido a uma notícia da revista "Sábado". Ao i, o autor do blogue, João Jordão, diz não conhecer a pessoa que divulgou a lista. "Tentei contactá-la através de comentários, mas não obtive resposta", afirma. O blogue nasceu em 2011. "Sou muçulmano e criei o blogue para tentar educar as pessoas para o assunto do islão, mas entretanto fui falando de outros assuntos", explica. A lista surgiu num comentário ao post "A Maçonaria Em Portugal – uma História de Corrupção e Conspiração". S. C.

PGR DESCONHECE
O i contactou a Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre a eventual abertura de um inquérito, mas a PGR respondeu que "não tem conhecimento oficial do teor da notícia" e, portanto, "não se pode pronunciar".

A lista divulga nomes de vários políticos, incluindo o líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho. Questionado pelo í, o socialista afirma apenas que sempre tem dito e mantém que "quem desempenha cargos públicos deve fazer um registo de interesses, mas não de crenças e valores". Opinião diferente tem a vice-presidente da bancada do PSD, Teresa Leal Coelho, que considera que quem desempenha cargos políticos "deve, voluntariamente, fazer um registo de interesses". Esse é também o entendimento já manifestado publicamente pela ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz.

Com Lilina Valente e Silvia Caneco | ionline | 31-08-2012