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REVISTA DE 2012

Ninguém sabe onde pára o amianto assassino

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A lei foi aprovada por Sócrates e comprometia o Estado português a "caçar" edifícios com substância cancerígena. Mas para o Executivo de Passos esta não é a "prioridade número um". Entretanto, há suspeitas de que o amianto já tenha contribuído este ano para a morte de três funcionários públicos.

É mais uma das medidas que Sócrates deixou de herança e que está a "entalar" Passos Coelho. A 9 de Fevereiro de 2011, estabeleceu o Executivo socialista "procedimentos (...) com vista à remoção de produtos que contêm fibras de amianto". Era tudo bastante simples no papel: as autoridades tinham um ano para proceder ao levantamento de todos os prédios e equipamentos públicos com aquela substância; e mais 90 dias para remover o produto (coisa que não ficaria nada barata ao Estado).

Ora o amianto, muito utilizado na construção em Portugal até ser proibido pela União Europeia, em 2005, é um produto que pode provocar cancro, através da libertação de partículas. Mas proibir não foi suficiente. Devido à popularidade do material nas décadas anteriores, o Governo de Sócrates fez passar esta legislação para inventariar os 4 mil edifícios públicos com amianto.

Com eleições e crises pelo meio, tudo parece ser mais importante para este Governo do que o amianto. Assunção Cristas, ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, já garantiu mesmo que o levantamento seria feito, mas acrescentou que esse trabalho não era "prioridade número um". Curiosamente, o actual Governo de coligação nem pode sequer dizer que esta era uma medida "socialista" da administração anterior. Afinal, o Parlamento aprovou o referido diploma por... unanimidade.

Esta posição da ministra do Ambiente vai ser denunciada pela Quercus ao Comité de Altos Responsáveis da Inspeção do Trabalho, um organismo da Comissão Europeia. "O pior de tudo é que nos mantemos no desconhecimento. Não sabemos o que nos espera quando frequentamos ou trabalhamos num edifício público", diz a ambientalista Carmen Lima, citada pela revista 'Visão'.

Mortes no "edifício do IVA"

A história corre entre os funcionários públicos que trabalham no chamado "edifício do IVA", na Avenida João XXI, em Lisboa. A preocupação faz-se sentir - e o caso não é para menos. Tudo devido à morte de três colegas não fumadores, e relativamente novos, com cancro do pulmão. "Suspeita-se de que a doença tenha sido causada pelo amianto que, dizem, está nos tectos falsos", contou à revista Amândio Alves, da direção de Lisboa do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos.

Segundo O DIABO conseguiu apurar, o edifício já foi alvo de obras profundas, para retirar a substância proibida, mas ainda faltam três pisos. A verdade é que, passados quase dois anos, ninguém faz a mínima ideia onde está o amianto. "Na altura achámos o prazo ambicioso. Só que o trabalho nem sequer começou", critica Carmen Lima, do Centro de Informação de Resíduos da associação ambientalista Quercus. Se os edifícios públicos são os primeiros a não cumprir a lei, será fácil imaginar que ninguém saiba de que é que são feitos edifícios de uso público, como centros comerciais, por exemplo.

Tribunal com amianto em Arganil

A Associação Sindical dos Juizes enviou uma queixa à antiga Inspecção-Geral do Trabalho (actual Autoridade para as Condições do Trabalho) a denunciar a presença de amianto na estrutura do Tribunal de Arganil, no círculo judicial de Coimbra, em 2008. Quatro anos depois da denúncia da existência de amianto no Tribunal de Arganil, ainda nada foi feito. A Câmara Municipal lamenta o atraso na realização das obras, que iriam retirar a substância cancerígena da estrutura do edifício, que continua a ser um perigo para a saúde pública. O assunto é sério. De acordo com estudos elaborados por peritos da Comissão Europeia, revelados em Julho de 2007, o amianto pode vir a ser responsável por meio milhão de mortes dentro de 15 anos na Europa e de um milhão de mortes, nos próximos 30 anos, por doenças provocadas no aparelho respiratório. Recentemente, o Parlamento Europeu sugeriu mesmo que possam ser usadas ajudas do próximo quadro comunitário de apoio nos programas para detetar e remover o amianto.

Fábrica de telhas faliu e deixou amianto exposto

A empresa Lusallte construía telhas que continham amianto. Situada mesmo ao lado do Complexo Desportivo do Jamor, a velha e desactivada fabrica é uma preocupação para os ambientalistas. Está desativada, é verdade, mas foi da Lusalite que saíram muitas das coberturas com amianto espalhadas pelo País. A empresa trabalhava com a substância no seu estado mais puro: em fibra. O risco de que as partículas se espalhem é enorme, podendo ser facilmente inaladas e provocar graves problemas no aparelho respiratório.

Falida e abandonada, a Lusalite tinha um credor especial que terá tomado a posse dos bens: o Estado português. A Quercus já remeteu as preocupações para o Governo, mas até agora não há novidades sobre a velha fábrica - potencial polo de perigo para a saúde pública.

Francisco Lopes Soares | O Diabo | 27-11-2012

Comentários (2)


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deixem estar o amianto. afinal, pode contribuir para o défice ao não permitir que os trabalhadores em funções públicas (para o povo em geral, funcionários públicos), esses calaceiros, se aposentem, indo diretamente para a cova. força coelho, qque está quase a abrir a época de caça!
ex-fp legalmente espoliado , 27 Novembro 2012
infâncias...
Fartei-me de cortar nisso -lusalite- para fazer "castanholas quando era garoto! Claro que nessa época o asbestos/amianto ainda não era cancerigeno. Tal como o tabaco era porreirinho. Mais tarde enquanto professor fartei-me de dar aulas em pavilhões cobertos com essas telhas!
Creio ainda existirem montes de pavilhões telhados com lusalite!
Pedro Só , 28 Novembro 2012

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