In Verbis


icon-doc
REVISTA DE 2012

Salvar a "opinião pública"

  • PDF

Pedro Lomba - Já se percebeu que Pedro Passos Coelho julga que pode governar sem ligar grande coisa à opinião pública. Depois da desastrosa comunicação de 7 de Setembro, as circunstâncias aconselhariam moderação e prudência. Mas o que ouvimos a Passos Coelho? "Quem governa não pode estar a governar para satisfazer a opinião pública". No dia seguinte, as manifestações foram o desabamento deste seu mundo de negação.

A democracia é o regime da opinião pública. É o regime da conversa, da persuasão, da negociação. Mesmo quando parece inútil ou improfícua, não se pode negar a conversa. Toda esta raiva que de repente fluiu para as ruas, sem sabermos como e onde acabará, significa que muita gente achou que devia participar na conversa. Muita gente achou que era uma maneira de parar o Governo. Nada mais natural.

Mas a democracia, é bom lembrar, também é o regime que tenta ir além da conversa. Somos hoje um país sem soberania. Temos um "ajustamento" severo a fazer. Temos metas orçamentais para cumprir. Temos credores à perna. Temos escolhas pela frente que nunca serão indolores. E não dependemos só de nós.

Os próximos tempos dirão se o Governo quer mesmo governar sem "ouvir" a opinião pública. Os próximos tempos também dirão se a dita opinião pública quer opinar e protestar sem "ouvir" o Governo. Não falo só deste Governo em concreto. Falo do reconhecimento de que as medidas duras precisam tanto de uma sociedade disponível para a austeridade, como de um país governável em austeridade; precisam de uma política realista e adaptada às nossas circunstâncias, de uma ética da responsabilidade e não apenas de uma ética da convicção. As manifestações de sábado podem até ser um sinal de que o Governo perdeu o país. Agora é preciso perguntar: será que o país perdeu o Governo?

As manifestações de sábado foram um acontecimento político. Com muita gente desiludida e receosa, farta de políticos sem honra nem vergonha, insatisfeita com o que está a ser cozinhado sem a sua compreensão. Mostram com clareza que a vontade de um Governo e o estado de emergência não são suficientes. Limitamse a despejar uma política de austeridade, convencidos de que o resto é acessório: ponderar o impacto das medidas, ouvir os parceiros sociais, perceber os sinais da sociedade. Mas uma manifestação não é nenhum "regresso da política". Pode até ser a sua negação. A política é o que fazemos quando precisamos de escolher e decidir no mundo real, com limitações e contingências. E é nesse mundo que estamos.

Os próximos tempos servirão para fazer o teste. Neste momento, não será melhor um Governo saído de eleições, influenciável pelo tribunal da opinião pública e disponível para se autocorrigir, do que um Governo imposto pela troika que, esse sim, actuará pela pura força? A democracia não está suspensa, como de resto provam as manifestações de sábado. Já das alternativas, não sabemos bem. E, contra essas, não haverá conversa que nos salve.

Cabe a Passos Coelho ponderar as consequências das medidas que propõe, mostrando que, ao contrário do que infantilmente diz, a opinião pública é importante. Isso passa por deixar cair o aumento da taxa social única para os trabalhadores e abrir-se às alternativas que existem. Cabe à opinião pública ponderar as consequências dos seus protestos, mostrando que não deseja o vazio e o caos.

A opinião pública pode salvar o Governo de um erro crasso. Salvar-se-á a opinião pública também de si mesma?

Pedro Lomba | Público | 18-09-2012

Comentários (3)


Exibir/Esconder comentários
Exigir o impossível...
O actual PM não foi escolhido nem pela sua experiência nem pelos seus conhecimentos da coisa pública. É manifesto que não tem nem uma coisa nem outra, tal como os boys e girls de que fez rodear os seus ministros e pagos a peso de ouro, mais que um conselheiro ou desembargador e ainda com os cueiros agarrados ao traseiro. Uns e outros só têm fantasia e exercícios académicos na cabeça, provavelmente ainda no enunciado.
Posto isto porquê exigir a uns e outros, em especial ao PM, o que eles, por mais interessados que estejam em acertar ( do que eu duvido quanto ao PM dados os seus preconceitos ideológicos e os seus mentores), não podem dar? Que podia o candidato a PM fazer para ser escolhido pelos seus pares como candidato ao cargo que agora tem? Falar, sorrir, ser dinâmico, enfim, dar cumprimento ao sugerido pelos peritois em comunicação. Não era evidente o desfasamento do que prometia, sem mesmo saber o estado real do País, com o que seria possível fazer? Não se via claramente o seu desprezo pelo Estado e seus agentes considerados uma despesa a reduzir e um encargo para a iniciativa privada? Alguma vez lhe poderia passar pela cabeça que se a qualidade da democracia não se afere pela dimensão do Estado também é verdade que sem Estado ela não existe e não haverá Estado se as sua instituições forem governadas, directa ou indirectamente, pelos interesses privados? Nunca. O PM detesta as peias legais, o peso dos que só através do Estado podem ter alguma dignidade cidadã, os que devem julgar da conformidade do que faz com a lei que tem de respeitar, como a CRP. O PM é um cego deslumbrado com a realidade que imagina. Não admira por isso que fale em função da sua realidade e aja em sua conformidade.
O PM faz o que pode e sabe. Não é provavelmente má pessoa mas os seus actos e os do governo que preside são insensatos, crueis e acima de tudo assassinos da esperança de todos os que deles não beneficiam.
Barracuda , 18 Setembro 2012 | url
Eça de Queirós e o hoje
Sem dúvida qe Passos Coelho é um dignissimo descendente do Conde D'Abranhos!
Sem dúvida que se Eça se levantasse da tumba reconheceria de imediato tão ignaro e desprezivel personagem!
Pedro Só , 18 Setembro 2012
...
Pois é, Pedro Lomba, mas é bom não esquecer que mesmo na democrática Atenas havia os Alcmeónidas mas também os Pisistrátidas (desculpem algum erro ortográfico mas creio que é assim que se escreve).
Jesse James , 18 Setembro 2012

Escreva o seu comentário

reduzir | aumentar

busy

Últimos conteúdos

A estrutura da InVerbis está organizada por anos e classificada nos correspondentes directórios.Os conteúdos publicado...

O Estado assumiu, através da empresa pública Parvalorem, a dívida de quase 10 milhões de euros de duas empresas de Vítor...

Dos 118 homicídios cometidos em 2012, 63 tiveram familiares como protagonistas • Cinco pais e 18 padrastos detidos por a...

Pedro Lomba - Na primeira metade do ano o ajustamento negociado com a troika correu dentro do normal e expectável. Mas d...

Últimos comentários

Tradução automática

Opinião Artigos de Opinião Salvar a "opinião pública"

© InVerbis | 2012 | ISSN 2182-3138 

Sítios do Portal Verbo Jurídico