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REVISTA DE 2012

As espadas

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Pedro Santos Guerreiro - O Governo estragou tudo. Tudo. Estragou a estabilidade política, a paz social, estragou aquilo que entre a revolta e o pasmo agregava o país: o sentido de que tínhamos de sair disto juntos. Sairemos disto separados? Hoje não é dia de escrever com penas, é dia de escrever de soqueira.

Passos Coelho, Gaspar e Borges estiveram fechados em salas tempo de mais. Esqueceram-se que cá fora há pessoas. Pessoas de verdade, de carne, osso, pessoas com dúvidas, dívidas, família, pessoas com expectativas, esperanças, pessoas com futuro, pessoas com decência. Pessoas que cumpriram. Este Governo prometeu falar sempre verdade. Mas para falar verdade é preciso conhecer a verdade. A verdade destas pessoas. Quando o primeiro-ministro pedir agora para irmos à luta, quem correrá às trincheiras?

Não é a derrapagem do défice que mata a união que faz deste um território, um país. É a cegueira das medidas para corrigi-lo. É a indignidade. O desdém. A insensibilidade. Será que não percebem que o pacote de austeridade agora anunciado mata algo mais que a economia, que as finanças, que os mercados - mata a força para levantar, estudar, trabalhar, pagar impostos, para constituir uma sociedade?

O Governo falhou as previsões, afinal a economia não vai contrair 4% em dois anos, mas 6% em três anos. O Governo fracassou no objectivo de redução do défice orçamental. Felizmente, ganhámos um ano. Mas não é uma ajuda da troika a Portugal, é uma ajuda da troika à própria troika, co-responsável por este falhanço. Uma ajuda da troika seria outra coisa: seria baixar a taxa de juro cobrada a Portugal. Se neste momento países como a Alemanha se financiam a taxas próximas de 0%, por que razão nos cobram quase 4%?

Mais um ano para reduzir o défice é também mais um ano de austeridade. E sem mais dinheiro, o que supõe que regressaremos aos mercados em 2013, o que será facilitado pela intervenção do BCE. Mas "regressar aos mercados" não é um objectivo político nem uma forma de mobilizar um país. São os fins, não os meios, que nos movem.

Sucede que até este objectivo o Governo pode ter estragado. Só Pedro Passos Coelho parece não ter percebido que, enquanto entoava a Nini, uma crise política eclodia. A nossa imagem externa junto dos mercados, que é uma justa obstinação deste Governo, está assente em três ou quatro estacas - e duas delas são a estabilidade política e a paz social. Sem elas, até os juros sobem. E também aqui o Governo estragou tudo. Tudo.

Os acordos entre partidos da coligação e o PS, e entre o Governo e a UGT, têm uma valor inestimável. Que o diga Espanha, que os não tem. Mas não só está anunciado um aumento brutal de impostos e de corte de salários públicos e pensões, como se inventou esta aberração a destempo da alteração da taxa social única, que promove uma transferência maciça de riqueza dos trabalhadores para as empresas. Sem precedentes. Nem apoiantes.

Isto não é só mais do mesmo, isto é mal do mesmo. O dinheiro que os portugueses vão perder em 2013 dá para pintar o céu de cinzento. O IRS vai aumentar para toda a gente, através de uma capciosa redução dos escalões e do novo tecto às deduções fiscais; os proprietários pagarão mais IMI pelos imóveis reavaliados, os pensionistas são esmifrados, os funcionários públicos são execrados. É em cima de tudo isto que surge o aumento da TSU para os trabalhadores.

Alternativas? Havia. Ter começado a reduzir as "gorduras" que o Governo anunciou ontem que vai começar a estudar para cortar em 2014 (!). Mesmo uma repetição do imposto extraordinário de IRS que levasse meio subsídio de Natal, tirando menos dinheiro aos trabalhadores e gerando mais receita ao Estado, seria mais aceitável. O aumento da TSU é uma provocação. É ordenhar vacas magras como se fossem leiteiras.

Poucos políticos têm posto os interesses do país à frente dos seus. Desde 2008 que tem sido uma demência. Teixeira dos Santos aumentou então os funcionários públicos para ganhar as eleições em 2009. Cavaco Silva devia ter obrigado a um Governo de coligação depois dessas eleições. José Sócrates jamais deveria ter negociado o PEC IV sem incluir o PSD. O PSD não devia ter tombado o Governo. E assim se sucedem os erros em que sacrificam o país para não perderem a face, as eleições ou a briga de ocasião. O que vai agora o PS fazer? E Paulo Portas? E o Presidente da República, vai continuar a furtar-se ao papel para que foi eleito?

João Proença foi das poucas pessoas que pôs o interesse do país à frente do seu, quando fez a UGT assinar um acordo para a legislação laboral que, obviamente, lhe custaria a concórdia entre os sindicalistas. Até Proença foi agora traído. Com o erro brutal da TSU, de que até meio PSD e o Banco de Portugal discordam. Sim: erro brutal.

É pouco importante que Passos Coelho não tenha percebido que começou a cair na sexta-feira. É impensável que lance o país numa crise política. É imperdoável que não perceba que matou a esperança a milhares de pessoas. Ontem foi o dia em que muitos portugueses começaram a tomar decisões definitivas para as suas vidas, seja emigrar, vender o que têm, partir para outra. Ou o pior de tudo: desistir.

Foi isto que o Governo estragou. Estragou a crença de que esta austeridade era medonha e ruinosa, mas servia um propósito gregário de que resultaria uma possibilidade pessoal. Não foi a austeridade que nos falhou, foi a política que levou ao corte de salários transferidos para as empresas, foi a política fraca, foi a política cega, foi a política de Passos Coelho, Gaspar e Borges, foi a política que não é política.

Esta guerra não é para perder. Assim ela será perdida. Não há mais sangue para derramar. E onde havia soldados já só estão as espadas.

Pedro Santos Guerreiro | Negócios online | 11-09-2012

Comentários (19)


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massa crítica em acção...
Genial!...
Giulia , 13 Setembro 2012
...
Está mais que visto que este governo é simplesmente repugnante. Que o povo o demita o mais rápido possível, já que o presidente da república é outro asqueroso!
Ah.... , 13 Setembro 2012
irmos à luta, i e, irem (eles) ao pote
«Quando o primeiro-ministro pedir agora para irmos à luta, quem correrá às trincheiras?»

Na verdade, quando PPC fala em ir(mos) à luta, na sua mente está a ideia de IR(EM) AO POTE, tão só!...
Rapar o tacho, é o que está a dar (para eles - esses tipos que se governam às custas de todo um povo, faminto!...)
Peter , 13 Setembro 2012
...
E não se esqueçam que o Durão Barroso (outro que tal que ainda bem que desapareceu do país) apadrinha estas medidas! Pena é que continue a fazer m.... : defender o federalismo europeu, nos tempos que correm, nem ao diabo lembra..... smilies/cheesy.gifsmilies/cheesy.gif
Ah.... , 13 Setembro 2012
Stiglitz, please come here!...
«Será que não percebem que o pacote de austeridade agora anunciado mata algo mais que a economia, que as finanças, que os mercados - mata a força para levantar, estudar, trabalhar, pagar impostos, para constituir uma sociedade?»

STIGLITZ, PLEASE COME HERE!...
Lília , 13 Setembro 2012
tanta ignorância junta até dá dó
Só Pedro Passos Coelho parece não ter percebido que, enquanto entoava a Nini, uma crise política eclodia (...) [sem] estabilidade política e paz social (...) até os juros sobem!...

TANTA IGNORÂNCIA JUNTA ATÉ DÁ DÓ!...
Alex, the first , 13 Setembro 2012
neoliberalismo selvagem
«...não só está anunciado um aumento brutal de impostos e de corte de salários públicos e pensões, como se inventou esta aberração a destempo da alteração da taxa social única, que promove uma transferência maciça de riqueza dos trabalhadores para as empresas.»

Onda neoliberal selvagem, pura e dura!...
Surprise?...
Alex, the first , 13 Setembro 2012
campos de concentração e câmaras de gás - para a populaça, já!...
«O IRS vai aumentar para toda a gente, através de uma capciosa redução dos escalões e do novo tecto às deduções fiscais; os proprietários pagarão mais IMI pelos imóveis reavaliados, os pensionistas são esmifrados, os funcionários públicos são execrados. É em cima de tudo isto que surge o aumento da TSU para os trabalhadores.»

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO E CÂMARAS DE GÁS DO SÉCULO XXI!...
Peter , 13 Setembro 2012
Demência...
«Desde 2008 que tem sido uma demência.»
STIGLITZ TÃO BEM O DISSE!...

E Paulo Portas?
ESPERTINHO...
LANÇA AS FARPAS E PÕE-SE A MILHAS...

E o Presidente da República, vai continuar a furtar-se ao papel para que foi eleito?
Esse está entretido a comer bolo-rei... enquanto se delicia a olhar para as fotos das autoestradas de Portugal..., que servem tão somente para encher os cofres de quem agora nos aprisiona e escraviza...
Já ensaiou comer betão, senhor presidente?
E o que tem lido ultimamente?...

Alex, the first , 13 Setembro 2012
Cueiros
Não haverá neste país quem mude es fraldas ao Passos Coelho e ao Vitor Gaspar ?
É que o cheiro a caca intoxica o país!
Kill Bill , 13 Setembro 2012
...
Só não consigo perceber uma coisa. Onde estava esta gente toda quando só os funcionários públicos e os pensionitas foram visados?!!! Onde estava este patriotismo?
Na verdade, concordo inteiramente com a opinião de Pedro Guerreiro, mas acho insuportável a ideia de que ninguém se importou, para além dos próprios, com os funcionários públicos, com as suas vidas, com as suas famílias!
Quid Juris? , 13 Setembro 2012
...
Nem com os pensionistas se importaram!
Quid Juris? , 13 Setembro 2012
...
Excelente artigo.
Mas concordo com Quid Juris. Por onde andavam tantas vozes quando os confiscados foram apenas os FP? Em lado nenhum, nem se viram, só a assobiar para o lado, senão mesmo a baterem palmas...
O confisco, apenas, dos salários dos FP foi (e será) fácil, barato e dá milhões. Não tira votos significativos, nem levanta ondas! E, por isso, a irritação então manifestada pela maioria, particularmente do CDS, ao Ac. do TC.
FP , 13 Setembro 2012
Espanto
Nao me surpreende que agora todos se exaltem quando se entendia antes que nada de especial significava o corte de dois salários a quem exercia funções públicas ou equiparadas. A acrescer a uma redução de entre cinco e dez por cento. Isso é sintoma de como a generalidade da opinião pública e publicada pensa sobre o Estado e sobre quem para ele trabalha, por um lado, e uma simples questão de umbiguismo e aritmética (seiscentos mil fazem menos barulho e movem menos influencias do que quatro milhões...), por outro. Basta pensar no argumento patético relativo ao impacto na economia da repartição entre trabalhadores públicos e privados no que toca ao confisco de um dos salários. Dois mil milhões são dois mil milhões, sejam eles retirados da economia, por confisco, a partir dos vencimentos pagos pelo estado ou pelos privados. Mas enfim.
O que verdadeiramente espanta é que, argumentando com a decisão do TC, se mantenha na mesma o confisco de dois salários a quem é pago pelo Estado, e se acrescente o confisco de um salário a quem trabalha no privado, assim como se estenda a pena do Estado aos pensionistas. Foi um tiro, uma bazuca, no pé inacreditável e eventualmente fatal. Utiliza-se, de forma asinina, um pretexto insustentável logicamente para fazer uma operação de engenharia social/financeira/economica profundíssima e nunca testada, num contexto de enormes tensões sociais e económicas.
Impensável, mesmo infantil, e perigoso, dando no que vemos.
Alexandre , 13 Setembro 2012
o que verdadeiramente importa
«... concordo inteiramente com a opinião de Pedro Guerreiro»

ISTO É O QUE VERDADEIRAMENTE IMPORTA!...

«... mas acho insuportável a ideia de que ninguém se importou, para além dos próprios, com os funcionários públicos»

HÁ QUE PASSAR "POR CIMA" DESTA MÁGOA!...
A DISCUTIR, QUE SE FAÇA EM CONTEXTO PRIVADO!...
TÃO SÓ!...

VALORES MAIS ALTOS SE ALEVANTAM!...

Phil , 13 Setembro 2012
...
Não resisto a fazer o seguinte comentário.
É certo que esta questão da TSU não tem pés nem cabeça, nem os empresários a querem, e só quem não vive neste mundo pode imaginar que dará algum resultado (ou então algum radical neo liberal agarrado a uma leitura apressada dos homens de Chicago)
No entanto, não deixo de assinalar que enquanto foi bater só nos funcionários públicos, a maioria dos comentadores de serviço e mesmo muita opinião pública, entendia que era uma medida necessária e até justa (os FP são aqueles privilegiados).
Agora que para alem dos meus 4 ordenados (sim, é preciso fazer contas ao corte salarial anterior ao confisco dos subsidios) querem tirar um salário ao privado, já toda a gente se insurge, incluindo muitos do CDS e PSD. Pois é, quanto toca a nós...
Claro que eu sei como isto termina. O PPC recua na TSU e no fim os funcionários públicos é que se tramam (aliás, corte de salários para o OGE só na função pública, pois a TSU não vai para o deficit).
Farto , 13 Setembro 2012
A bem do país
Estas medidas são para 2013.
Ainda se está a mais de 2 meses do final de 2012. Existe tempo para reflectir e mudar a panaceia, em conjunto com TODOS os parceiros sociais.
Assim haja bom senso, e deixem os egos de lado, para corrigirem as medidas. a bem do país.
aluz , 14 Setembro 2012
...
«O Governo estragou tudo. Tudo.»

Leia-se: os cortes foram estendidos aos privados.

Enquanto os cortes foram para os públicos «ia tudo bem. Tudo». Agora vai tudo mal. Tudo.

Eu não nasci ontem.
Eu não nasci ontem , 14 Setembro 2012
...
Grande artigo e maior post, o de Quid Juris? Dizem tudo.
Jesse James , 14 Setembro 2012

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