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REVISTA DE 2012

Estes não são dias como os outros

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Pedro Delgado Alves - Não é todos os dias que podemos observar como um chefe de governo ignora uma decisão do Tribunal Constitucional, procurando convencer-nos de que está a cumpri-la

Estes não são dias como os outros. Não é todos os dias que vemos um governo tirar rendimentos já escassos aos desfavorecidos para os oferecer aos mais ricos, sem contrapartida e sem qualquer vislumbre de efeitos positivos para a economia, ao ponto de os beneficiários das medidas as recusarem por contraproducentes.

Estes não são dias como os outros. Não é todos os dias que um primeiro-ministro reduz o anúncio da mais arrasadora austeridade aos 15 minutos que antecedem um jogo da selecção, esperando tomar os seus concidadãos por tolos, esperando que não reparem.

Estes não são dias como os outros. Não é todos os dias que um primeiro-ministro espalha a desgraça em directo e vai trautear melodias da juventude minutos depois, inconsciente do que fez ou insensível ao que provocará. Se a ideia de Nero a tocar lira enquanto Roma ardia se fica pelo mito, a realidade do nosso chefe de governo entrará no registo histórico pela porta da pequenez.

Estes não são dias como os outros. Não é todos os dias que podemos observar o desplante com que um chefe de governo ignora uma decisão do Tribunal Constitucional, acompanhando-o com o topete infantil de procurar convencer-nos de que está a cumpri-la. Não é todos os dias que se ouve dizer que são aqueles que defenderam a Constituição que são responsáveis pelas receitas conducentes à injustiça, ilibando quem violou a igualdade, a proporcionalidade e a confiança, agindo ao arrepio de todos os compromissos eleitorais e de todos os argumentos usados para derrubar o anterior governo.

Estes não são dias como os outros. Não é todos os dias que vemos tanto empenho inconsciente no agravamento do fosso entre os cidadãos e os seus representantes, descredibilizando as instituições e abalando o regime democrático.

Estes não são dias como os outros. Não é todos os dias que se desmantela a escola pública, colocando o investimento na educação ao nível de 1995, que se destrói a universalidade do SNS, impedindo o acesso de todos a cuidados de saúde, e que se desregulam as relações laborais, reforçando a precariedade e remendando com pensos rápidos ineficientes o drama crescente do desemprego jovem.

Estes não são dias como os outros. Não é todos os dias que desempregados, precários, funcionários públicos, trabalhadores, pensionistas, cidadãos e cidadãs da nossa centenária República, todos somos insultados pela cobardia de quem não percebe a realidade do país e está disposto a submetê-lo à miséria para testar aquilo que todos avisam que vai agravar o desastre.

Estes não são dias como os outros. Não são dias de ficar em casa, não são dias de deixar na mão dos outros a construção do futuro, não são dias para privar a República das nossas vozes. Não são dias para esquecer o que os nossos pais e avós deram e sofreram para podermos viver numa democracia real, com direitos e dignidade para todos, com solidariedade entre gerações e dentro das gerações.

Estes não são dias como os outros. São dias dos quais vamos querer ter orgulho quando os nossos netos nos perguntarem por onde andávamos quando se tentou recuar 40 anos em 12 meses. São dias em que não vamos deixar que fechem as portas que Abril abriu. Estes não são dias como os outros.

Pedro Delgado Alves - Secretário-geral JS | ionline | 19-09-2012

Comentários (1)


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...pejado de razão, carregado de suspeição político-partidária! Um dos principais responsáveis anda a comer croissants em Paris, o outro, o actual, irá porventura comer bolas de (a) Berlim...


Quid Juris? , 19 Setembro 2012

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