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REVISTA DE 2012

O erro

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Nuno Correia da Silva A troikamania faz lembrar aquela história paradigma da falta de senso económico, a história do Sr. Joaquim que vendeu todos os tractores para poder comprar gasóleo.

Aumentar os impostos numa economia que precisa de ganhar competitividade é um erro grosseiro que afronta princípios básicos da economia e já provou à exaustão a sua subversão, a consequência é exactamente o oposto do objectivo, provoca redução do valor global da receita.

A tentativa de negar a verdadeira natureza do agravamento em mais de 60% das contribuições dos trabalhadores, dizendo que não é um agravamento fiscal, não colhe. Para além de ser insultuosa para a inteligência de todos nós colide com o seu enquadramento legal. As dívidas à Segurança Social gozam de privilégios creditórios, privilégios só atribuídos às receitas fiscais.

A taxa social única é, talvez, o instrumento fiscal mais destrutivo da competitividade, transforma custos sociais em custos de produção, promove o dumping social e oferece uma falsa vantagem aos produtos importados, sobretudo quando provenientes dos mercados asiáticos onde o valor do trabalho é ditado por vontades tiranas. Tudo isto é exactamente o contrário do que precisamos.

Parece existir uma tímida estratégia, admitindo que há uma, de equilibrar a balança comercial por via da redução do consumo. Secar o bolso dos portugueses para reduzir as importações. Não é o melhor caminho, a balança deve ser equilibrada por via do aumento das exportações, pelo que é imperioso reduzir custos de produção impostos às empresas, custo energéticos, custos fiscais, custos financeiros, etc. Ocorre que, também para este propósito, o aumento da TSU é contraditório. Pelas razões mencionadas de distorção da competitividade, este agravamento vai tornar os produtos nacionais mais caros, menos competitivos, favorecendo a procura de produtos importados, ou seja agravando o défice da balança.

Nada abona a favor da opção anunciada pelo Governo. A justificação que a suporta, necessidade de acolher e respeitar a decisão do Tribunal Constitucional, também não é alcançada. O Tribunal entendeu inconstitucional a suspensão do subsídio de férias e de Natal dos funcionários públicos por ser uma medida não equitativa, por não abranger a generalidade dos cidadãos. Acontece que a solução anunciada está ferida do mesmo vício, há diversas actividades e profissões que, por não estarem obrigadas ao pagamento de contribuições para a Segurança Sociai, nomeadamente advogados, trabalhadores de algumas instituições financeiras, e outras actividades que ainda funcionam em regimes de "caixa", vão continuar a ter um benefício injustificado, sendo-lhes permitido permanecer excluídas do chamado esforço nacional.

A posição que o Tribunal Constitucional vier a tomar sobre esta medida dirá muito da sua natureza. Estando os seus "pares", licenciados em Direito inscritos na ordem, a beneficiar da excepção injustificada que eles próprios condenaram, poderá este tribunal pronunciar-se de outra forma que não seja sobre a inconstitucionalidade desta medida?

Cada visita que os srs. da troika fazem é prenuncio de más notícias, mas o País parece anestesiado, uma espécie de resignação colectiva que tudo permite e nada contesta. Do outro lado está um Governo que parece ter esquecido o programa que há pouco mais de um ano defendia com tanto vigor e com o qual se apresentou a eleições.

O primeiro-ministro dizia, há cerca de dois meses, que aqueles que entendem que o equilíbrio das finanças públicas teria de ser feito por via da redução da despesa estavam obrigados a identificar as despesas que deveriam ser eliminadas, é tempo de devolver a questão ao sr. primeiro-ministro, diga aos portugueses onde podem cortar mais. Diga-nos, da mesma forma que o exigiu, que despesas poderão ser reduzidas, serão as despesas do supermercado, da educação, da saúde, quais? É que a grande maioria dos portugueses já não tem quaisquer outras.

Nuno Correia da Silva | Diário de Notícias | 14-09-2012

Comentários (22)


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...
Pois é. Mas quando houve o corte de 10% nos vencimentos de muitos funcionários públicos, os que hoje tanto berram ficaram calados e quietinhos. Depois, quando houve o corte de mais 14% no vencimento dos mesmos funcionários públicos (já vamos em 24%, portanto), os que hoje se indignam e verborreiam, continuaram calados, quietos e até contentes. Agora que lhes chega ao pêlo apenas 7%, enquanto aos funcionários públicos acaba por ser, no total, cerca de 30% de corte, ai que caiu o carmo e a trindade, pois não toleram o sacrifício de 7% mas os funcionários públicos podiam suportar 24% de corte, pois eram alegadamente privilegiados, mas que não podiam comer fora nem fazer férias nem dar-se ao luxo de ter horas extraordinárias, carro, telemóvel e outras benesses do privado, tantas vezes com salários superiores aos da função pública.
Ouviram da poesia do judeu contra quem ninguém se importou?
Pois agora chegou a vez dos privados terem algum sacrifício e mesmo assim muito pouco comparativamente aos que têm estado a sofrer os da função pública que em nada contribuíram para o estado a que isto chegou porque são trabalhadores como os outros.
É desta massa que é feita um povo.
Só lamento que o sacrifício não seja igual. Mas igual mesmo - incluindo cortes nos tais carros, gasolinas, telemóveis e outros dinheiros por debaixo da mesa.
Alexandra , 14 Setembro 2012
digamo-lo milhares de vezes, de múltiplas maneiras
«Diga-nos, da mesma forma que o exigiu, que despesas poderão ser reduzidas...»

SÃO AS DESPESAS COM RENDAS MILIONÁRIAS, INSTITUTOS PÚBLICOS (SUBIRAM ASTRONOMICAMENTE SÓ ESTE ANO!...), PARCERIAS PÚBLICO PRIVADAS (!!!), AJUSTES DIRETOS MILIONÁRIOS, MORDOMIAS OBSCENAS...

APRE! QUE ESTA GENTE É DURA DE OUVIDO!...
OU ENTÃO ESTÃO A GOZAR!...
Peter , 14 Setembro 2012
Dividir para reinar
Cara Alexandra,
Trabalho no privado e não sei o que são essas benesses
carros, gasolinas, telemóveis e outros dinheiros por debaixo da mesa
. O meu círculo de amigos e colegas no geral também não sabem (um tem telemóvel da empresa que significa essencialmente que tem de atender chamadas fora do horário de serviço).
Essas perks a que se refere são para uma minoria e as melhorzinhas são mesmo para uma elite. Os milhares e milhares de trabalhadores que estão no meio e na base da pirâmide não tem privilégios nenhuns.
Ou melhor, neste momento acho que têm o "privilégio" de estar empregados.
Jc , 14 Setembro 2012
Privado e público devem contribuir por igual.
Esta dialéctica privado vs público não nos leva a lado nenhum.
Sem sector público deixaríamos de ser um estado para passar a ser uma selva.
No entanto, sendo eu do privado (em tempos no público mas não como fp, e reconhecendo a extrema importância de certos organismos públicos e existência neles de grandes profissionais ) não resisto a algumas observações:
No privado:
•Entra-se à hora certa e sai-se à hora..., ...incerta.
•Vê-se todos os dias o patrão: aquele que tem poder para nos despedir...
•Trabalha-se horas a mais (sobretudos nos serviços) e horas extraordinárias...
•Não se tem emprego para a vida.
•Não se sobe de posto e/ou vencimento por antiguidade ou aumento das habilitações (mts vezes nem convém dizer que se tirou determinado curso...).
•Qd se é incompetente, ou se é amigo do patrão, ou... rua.
•Tlmvl da empresa, significa 365 dias, 24h de trabalho. E nada de o desligar em férias.
•Qd a empresa tem prejuízo 2 anos seguidos, ao 3º deixa de ter. Porque fecha.
•O trabalhador tem de gerar riqueza para pagar o seu ordenado, lucro para a empresa, o seus impostos e da empresa.
•Greves ? só em empresas muito grandes (se calhar nem 1/2 dúzia em Pt), e mesmo nessas... (Continente, JMartins, Vodafone, TMN.. alguma vez ?.)
•Não se critica publicamente o patrão ! A menos que se queira mudar de emprego...
•Quem ganha mt no privado (ínfima minoria) ou é patrão, ou da família do patrão, ou é mesmo muito bom, e na maior parte das vezes deixa de ter vida pessoal.
Depois, também sempre achei interessante o facto dos funcionários públicos dizerem que descontam. É uma falácia. Como é que descontam, se a entidade para quem descontam é a mesma que lhes paga o vencimento ?!? Digamos que o estado lhes garante no futuro, uma pensão equivalente à que teriam se trabalhassem no privado com o respetivo vencimento.
Já repararam que as grandes reformas que se fala, são de indivíduos que exerceram cargos no público ou semi-público (os tais que eu digo ser uma falácia dizer que descontam).
Até porque os patrões no privado muitas vezes descontam o mínimo, e vão sim acumulando riqueza, em vez de a entregarem ao estado esperando depois pelo retorno através da reforma.

Estas minhas afirmações não obsta a que considere que no estado em que nos encontramos, e para que o país continue a ser um Estado, TODOS, PRIVADO E PUBLICO, POR IGUAL devem contribuir para salvar o país da banca rota.
Mas convinha de permeio, convencer aquela gente do governo a esquecerem os egos pessoais, e a refletirem com todos os parceiros sociais as melhores (menos más...) opções.
aluz , 15 Setembro 2012
Alexandra, esqueceu-se do aumento feito por José Sócrates feito em vésperas de concorrer para o segundo mandato... e de todos os aumentos que os FP tiveram quando aos privados nada foi aumentado.

Como sempre tenho dito: sem o estudo da História da evolução do poder de compra de públicos e privados dos últimos 25 anos, pelo menos, não se vai a lado nenhum no que toca a avaliar da justiça ou injustiça de cortes ou aumentos.

Dito isto, sempre disse que faria cortes aos FP, mas nunca os faria tão gravosos como os queria fazer o Governo. Depois, alertado pelo comentador "Juíz" - a quem muito agradeço! - nesta Revista, defendi que se deveria legislar para reduzir o salário aos mais favorecidos no privado, com o seguinte argumento: muitos foram contratados, se não em tempo de vacas realmente gordas, pelo menos em tempo de bonança. Parte do seu salário constitui hoje algum - algum! - peso morto na competitividade das empresas. Deve-se legislar para permitir à entidade empregadora diminuir alguma coisa nos salários mais elevados. (Eu sei que isto é muito vago sem se apresentar as % dos cortes e sem dizer a partir de que montantes remuneratórios devem ser feitos tais cortes.)

Voltando atrás para falar sobre os cortes aos FP tal como defendidos inicialmente pelo Governo, antes da decisão do TC: chocou-me profundamente a total falta de progressividade desses projectodos cortes, logo a partir de um montante de rendimentos muito baixo (a partir de 1000 ou 1100 euros, salvo erro, perdia-se logo os 2 subsídios). Sobre isto, em particular, que me lembre (mas se tiverem links ponham-nos aqui) foram muitíssimo poucos aqueles que se indignaram. Ou melhor, a indignação não era genuína:

os sindicatos não diziam: "estes cortes começam logo nos de parcos rendimentos; aceitamo-los, sim, mas só para faixas remuneratórias mais altas". Não. Diziam: "estes cortes começam logo nos de parcos rendimentos; fora com os cortes!"

Ora num País com o PIB a diminuir de um ano para o outro, só se consegue manter os salários recorrendo ao endividamento exterior. Ou aumentando a produção nacional - precisamente para voltar a fazer a subir o PIB. Mas ambas as coisas podem ser impossíveis. E já recorremos ao financiamento exterior: no total, as tranches somarão 80 mil milhões de euros. Que têm de ser pagos. Com juros...

Voltando aos sindicatos: é muito comum a defesa de ideias miseráveis como "queremos aumentos de 4%". Eles não dizem: queremos aumentos de 4% para os pobres, de 2% para a classe média, e nenhum aumento para rendimentos acima de x. Ora pedindo o aumento percentual para todos por igual o fosso entre ricos e pobres mantém-se.

E numa economia em que a subida dos preços não reflecte o crescimento do PIB (porque não o há), não só o fosso aumenta, como se agrava.

Ou, como diz o meu pai que tem a 4ª classe (feita num tempo em que se tinha de sair da escola não a ler, a escrever, a fazer contas, mas a SABER ler, a SABER escrever, a SABER fazer contas):

«A uns tiram do que lhes sobra; a outros do que lhes falta».

Ou: uns têm tractores, gasóleo, e reivindicam que são direitos adquiridos que não podem ser tirados.
Os que nunca tiveram nem tractores nem gasóleo que esgravatem a terra com as próprias mãos...
Desde o séc. XVIII que fontes históricas nos mostram que Portugal têm sido sempre assim desde esse tempo.
Gabriel Órfão Gonçalves , 15 Setembro 2012
o que é diferente não pode ser tratado de modo igual
«Deve-se legislar para permitir à entidade empregadora diminuir alguma coisa nos salários mais elevados. (Eu sei que isto é muito vago...)»
É muito vago, muito injusto e denotativo de total desconhecimento da realidade do mundo privado.
Estou a falar de responsabilidade acrescida (!), estou a falar de disponibilidade total, aqui ou na China (!), estou a falar de capacidade para viver no fio da navalha e manter o discernimento para tomar as melhores decisões, com a plena consciência do seu impacto na vida de todo um coletivo!...

Contribuir, sim!
Todos deverão contribuir!...
Mas, o patronato - o grande patronato - é que verdadeiramente detém o poder de contribuir sem que tal hipoteque a concretização dos seus projetos...
Nestes casos, sim, é uma questão de sublimar a ganância...
Agora, atacar os trabalhadores - mais ou menos especializados - é vil, pequenino e não resolve coisa nenhuma!...
Leo , 15 Setembro 2012
Alternativas precisam-se
Ouço e leio só criticas mas a verdade é que alternativas concretas ainda não li nem vi.
Apresentem-se alternativas e discutam-se as mesmas para se constatar se são ou não viáveis. Agora criticae por criticar não tem valor.
JOSÉ AUGUSTO RODRIGUES DE SÁ , 15 Setembro 2012 | url
alternativas - take III...IV...V...VI... (nº natural), elevado a uma qualquer potência positiva próxima do infinito...
Corte-se nas verdadeiras gorduras do Estado: Parcerias Público Privadas (!) de todas as áreas, Institutos Públicos (!) dos amigos, Ajustes Diretos (!) milionários, Mordomias (!) obscenas...
Renegoceie-se a taxa de juro da dívida pública (é difícil falar com tubarões?... difícil, mas não impossível...)...
Fomente-se a concertação de esforços por parte de todos os países em dificuldades, tendo em vista a apresentação de uma proposta conjunta para a liquidação da parte legítima da dívida, num prazo compatível com a paz social, o progresso, o verdeiro restabelecimento de todos os países envolvidos nesta lama!...

NÃO SERÃO, ESTAS PROPOSTAS, ALTERNATIVAS?

Alternativas credíveis, que é necessário agarrar antes que o lodo nos chegue ao nariz?!...
Ou me engano muito ou parece-me que estamos a brincar com assuntos sérios...
Isto mais parece um diálogo de surdos...

Leo , 15 Setembro 2012
Matemática aplicada à fiscalidade - 1/2
Leo,

votei positivo as suas "alternativas".

Oxalá que elas sejam suficientes para:

- reduzir a dívida pública para níveis sustentáveis (já nem digo pagar);
- ajustar a balança comercial para níveis razoáveis (já nem digo equilibrar);
- fazer diminuir para menos de 10% o desemprego (já nem digo 5%);
- tirar da iminência da falência milhares de famílias e indivíduos;
- haver dinheiro em caixa para prover a pensões, reformas, segurança social restante.
- haver dinheiro para a Administração Pública;
- etc.

Digo-lhe já que não acredito que isso seja possível sem cortar salários. Como gostaria de estar enganado!

Sabe, o que me choca não é o aumento de 7% nas contribuições para a SS. Choca-me o aumento ser... igual para todos!

Sabe, a fórmula para a segurança social poderia ser uma coisa do género:

y = 0.11 x

em que y é o valor a pagar mensalmente, e x o rendimento médio mensal. Teríamos uma tributação...

(latissimo sensu; não vou discutir se o pagamento à SS é um imposto ou uma taxa; entendo que é um imposto consignado, como já deixei aqui escrito: o único que a CRP autoriza. Digo que é "o único que a CRP autoriza" porque entendo que a CRP proíbe a consignação de impostos, autorizando apenas este caso da SS. Quanto à CRP autorizar a consignação de um imposto para fins de SS, fundo-me nos arts. 63 e 105/1 b), referindo este último expressamente que há um orçamento para a SS (a par de outro para tudo o resto). Quanto à proibição, pela CRP, de demais impostos consignados, esta opinião é altamente controvertida, mas creio que de vários princípios estabelecidos na Constituição se pode retirar essa proibição. Contra, vide:

http://www.sergiovasques.com/x...restal.pdf

pág. 72 e ss.. Vide a referência, nessa página, à opinião do Prof. Soares Martínez, com a qual concordo.

Uma vez nesta Revista escrevi que a CRP proibia a consignação de impostos. Com a ênfase que dava à minha afirmação, estava errado. Julgava que havia mesmo uma proibição expressa de consignação de impostos na CRP. (Na minha cabeça, e após 15 anos sobre Direito Fiscal, o princípio da não consignação de impostos foi tomando inconscientemente foros de constitucionalidade!) Não há tal proibição expressa, directa, indubitável. Mas pode-se retirar esse princípio a partir de outros, creio. De qualquer forma ela é hoje proibida por lei (infra-constitucional). Lei que está em vigor até ser revogada...
)

...teríamos uma tributação, dizia eu, proporcional: independentemente do rendimento, a % a pagar seria igual para todos.

a fórmula também poderia ser escrita assim:

y = 11% x (imposto a pagar mensalmente = 11% do rendimento mensal)

Mas também poderíamos ter uma fórmula que permitisse uma tributação progressiva.

Poderíamos ter a seguinte fórmula:

y = (10/1000 x)^2

que também se pode escrever

y = (1% x)^2

(^2 significa ao quadrado, para quem não sabe; escreve-se assim quando não é possível escrever números pequenos junto à linha superior, como se faz quando se escreve à mão uma potência)

ou seja, o valor mensal a pagar seria igual a 10 milésimas (já vou explicar porque utilizo 10 milésimas e não 1%, quando é exactamente a mesma coisa) do rendimento médio mensal elevado ao quadrado.

Isto faria com que quem ganhasse 500 euros por mês pagasse apenas 25 euros à SS (1% do seu rendimento ao quadrado). Já quem ganhasse 1000, pagaria 100 (que é 4 vezes aquilo que quem ganha metade paga, e não o dobro, que seria o que resultaria de uma função linear, correspondente a uma tributação proporcional, e que é aquilo de que agora nos queremos afastamos). Mais uma vez, lá está o 1% do seu rendimento ao quadrado. Resumindo:
Quem ganhasse 500 pagaria 25
Quem ganhasse 1000 pagaria 100
Quem ganhasse 2000 pagaria 400
Quem ganhasse 4000 pagaria 1600
Quem ganhasse 8000 pagaria 6400 (Que diabo?!?... Mais abaixo sobre isto)

Esta é uma função quadrática sobre 1% do rendimento do sujeito. À medida que dobramos o rendimento, multiplicamos por 4 o valor a pagar.

O problema é que a partir de um certo valor esta exponencialidade torna-se esmagadora: quem ganhasse 10000 por mês, e aplicando a fórmula, pagaria... 10000! E a partir de 10000, o sujeito pagaria até mais do que ganharia!

(continua)
Gabriel Órfão Gonçalves , 16 Setembro 2012
Matemática aplicada à fiscalidade - 2/2
(continuação e fim)

Daí que se possa acrescentar à fórmula um factor de abatimento.

Seja então:

y = (10/1000 x)^2 - (5/1000 x)^2

Utilizei há pouco as milésimas (em vez de centésimas) no denominador para não ter de utilizar agora décimas no numerador. Assim consegue-se uniformidade de leitura entre as duas fracções.

Mas também se pode escrever a fórmula assim:

y = (1/100 x)^2 - (0,5/100 x)^2

ou ainda

y = (1% x)^2 - (0,5% x)^2

O que está, substancialmente, nesta fórmula?
O sujeito paga o quadrado de 1% do que ganha, menos o quadrado de 0.5% do que ganha. Mitiga-se (sem se eliminar) a propriedade quadrática da primeira solução, através da subtração de uma parte do rendimento elevada ao quadrado.

(E não, tirar 0,5% ao quadrado de 1% ao quadrado do que se ganha não é a mesma coisa que subtrair 0,5% do que se ganha a 1% do que se ganha, e então fazer o quadrado.)

Se quiserem ver (mas VER mesmo), vejam aqui:

https://www.desmos.com/calculator

introduzindo as fórmulas que entenderem

(É fabuloso!)

Refazendo os cálculos:
o de 500 pagaria (25 - 6,25 =) 18,75;
o de 1000 pagaria (100 - 25 =) 75;
o de 2000 pagaria (400 - 100 =) 300;
o de 4000 pagaria (1600 - 400 =) 1200;
o de 8000 pagaria (6400 - 1600 =) 4800. (Ainda excessivo do ponto de vista fiscal...)

É inevitável que a partir de certa altura também esta fórmula quadrática não se possa ajustar às finalidades da SS ou do fisco em geral. É então preciso atenuar ainda mais, a partir de certo valor de rendimentos, a progressividade da fórmula.

Por exemplo, subtraindo mais, como em

y = (1% x)^2 - (0,75% x)^2

------------------------------------------------------

Mas também é preciso manter sempre a progressividade da fórmula, quando se trate de imposto sobre o rendimento. (Vamos deixar a SS agora de lado, embora esta devesse ser profundamente revista: então não é que, em certos escalões de rendimento, a tributação chega a ser... REGRESSIVA?!? Sim, quem mais ganha paga menos em % do que quem menos ganha. Em breve farei a exposição dessa aberração!)

Lembremo-nos de que, apesar de a CRP impor a progressividade do imposto sobre o rendimento

«Art. 104
1 - O imposto sobre o rendimento pessoal visa a diminuição das desigualdades e será único e progressivo, tendo em conta as necessidades e os rendimentos do agregado familiar.»,

a verdade é que tal é manifestamente desrespeitado pelo legislador, ao estabelecer um escalão máximo de (em quanto é que está? Aquela coisa do TC permitir alterações aos escalões do IRS a meio do ano com efeitos retroactivos desde o início do mesmo fritou-me os neurónios responsáveis por memorizar essas coisas. Esse neurónios já nem vegetam. Simplesmente fritaram smilies/grin.gif )...

Ora a verdade é que se poderia estabelecer um último escalão progressivo (assim se respeitando a CRP!), e não meramente proporcional ( = mesma taxa para todos a partir de certo rendimento) dizendo que a partir de certo valor a taxa de cobrança é de, por ex.,

(46% x) + (1/10000 x)^2. (sendo x sempre o rendimento mensal do sujeito)

Introduzindo-se uma expressão quadrática sobre uma ínfima parte do rendimento (uma décima milésima!), garante-se, ainda que minimamente, a progressividade do imposto sem levar a que, a partir de certo valor, o sujeito fique prejudicado em relação àqueles que auferem menos (efeito que, de facto, acontece nas fórmulas quadráticas aplicadas ao cálculo do imposto a cobrar; e também na última fórmula, mas só com valores de rendimentos absolutamente inverosímeis). Esse efeito tem um nome de que agora não me recordo: "ponto de não-sei-quê"... Acontece quando o sujeito que ganha, por ex., 500 mil euros por mês, vê-lhe de tal modo ser subtraída uma quantia que fica em piores condições do que se só ganhasse 400 mil. (Este fenómeno, embora parecido no efeito, não tem nada que ver com o efeito "subi de escalão, vou pagar mais, e então vou ficar com menos, apesar de ter mais rendimentos ilíquidos!". Este último efeito deriva da falta de inteligência de quem faz os escalões do IRS. Peçam a qualquer professor do secundário para corrigir isso e ele leva 50 euros...)

Bem, hoje fico por aqui:

Divirtam-se:

https://www.desmos.com/calculator/2iqdopiykh

Clicando sobre um ponto de uma das linhas, verão aparecer dois valores separados por uma vírgula: o primeiro (da esquerda) é o rendimento do sujeito (x); o segundo é quanto teria de pagar ao fisco, à SS, ao que quiserem, de acordo com a fórmula correspondente à linha.
Gabriel Órfão Gonçalves , 16 Setembro 2012
Quem cerca quem?
«Renegoceie-se a taxa de juro da dívida pública (é difícil falar com tubarões?... difícil, mas não impossível...)...»

Na falta de melhor inspiração para esgrimir argumentos, pegue-se-lhes nos pontos fracos...
Afinal, quem os não tem?...
Isto é tudo gente tão fraquinha, com condutas tão discutíveis...
Lília , 16 Setembro 2012
PT - Prostitu**** em T*v*r*
«Isto é tudo gente tão fraquinha, com condutas tão discutíveis...»

Triste realidade...
Do cerne da europa à parvónia mais pequenina deste cantinho à beira-mar plantado, são mais que as 'mães'...
[não; não me estou a referir a santas mães de família; antes, porém, àquelas da casa de meninas (segundo dizem, enormérrima) de ayamonte, onde, sob a 'égide' protetora de uma qualquer taróloga, são apanhados nas malhas do prazer 'ilícito' chefes de família com poder político ali bem perto...
Resultado:
"Agora licencias... e eu pinto a manta... beach, versão 2..."
"Totalmente fora da lei..., mas o prazer que tenho em galvanizar uma estridente gritaria, bem ao estilo das seitas americanas, enquanto, na ala vip, se desenrolam acontecimentos do 'oculto'... é indescritível..."
Leo , 16 Setembro 2012
Progressivo... ma non troppo...
Caríssimo Gabriel, muito bem explicado!...
Bem se vê que tem esta parte da matéria bem estudada...

Leo , 16 Setembro 2012
PPC OUT
«A tentativa de negar a verdadeira natureza do agravamento em mais de 60% das contribuições dos trabalhadores, dizendo que não é um agravamento fiscal, não colhe: (é) insultuosa para a inteligência de todos nós (e) colide com o seu enquadramento legal.»

Não colhe, i e, é uma mentira grosseira e rude, própria de cretinos e mentecaptos!...
Peter , 16 Setembro 2012
Ferrari
«Parece existir uma tímida estratégia, admitindo que há uma, de equilibrar a balança comercial por via da redução do consumo. Secar o bolso dos portugueses para reduzir as importações. Não é o melhor caminho, a balança deve ser equilibrada por via do aumento das exportações, pelo que é imperioso reduzir custos de produção impostos às empresas, custo energéticos, custos fiscais, custos financeiros, etc»

Neste "etc" poderemos/deveremos incluir maior especialização e redefinição de prioridades por parte dos grandes empresários no que concerne às margens de lucro consideradas indispensáveis/obrigatórias, assim como ao encaminhamento que é dado às divisas... sob pena de estarmos apenas a falar de uma pequena parte da verdade...
Peter , 16 Setembro 2012
sem legitimidade para (des)governar
«...[temos]um Governo que parece ter esquecido o programa que há pouco mais de um ano defendia com tanto vigor e com o qual se apresentou a eleições.»

É precisamente por estar a fazer exatamente o contrário daquilo a que se comprometeu perante os portugueses que este governo perdeu toda a legitimidade para continuar a definir os destinos do país!...

Pulhas e Velhacos - é o que são (quase) todos eles!...
Sem atenuante digna de relevo!...
[excepção para Crato e pou mais...]
Alex, the first , 16 Setembro 2012
Discoteca como testa de ferro para negócio de prostituição?
Não é tanto aquele Jeep branco, anunciando "El Placer", estacionado à porta da discoteca ....

Embora nos interroguemos:
A que propósito tem T@v§r@ de levar com a propaganda de um negócio de prostituição "ali ao lado"?!...

Afinal, numa discoteca dança-se... com a roupinha em cima do pêlo...

Para quê a aproximação dos dois conceitos?!...
Ali, no terreno, sem qualquer respeito pelo público residente ou pelos jovens que frequentam aquele espaço...

Suscita, tal circunstância, dúvidas...
Dúvidas e más intuições...

Na tendalona, onde muito se transpira e mal se consegue respirar, está a populaça a trabalhar para a surdez precoce...
No edifício, a ala "vip" [conceito repugnante!...], em momento de confraternização privada...

Que o diga uma das RP, ex apresentadora do La Vie en Rose...

Não tenho a confirmação de que nesse espaço se praticam actos menos dignos, enquanto ao lado, na dita tenda, se grita desenfreadamente - tanto mais quanto mais se bebe...

Mas a atitude profundamente selvática [do tipo, faço o que me der na gana e ninguém mo impede...], de desrespeito total pela população desta - outrora nobre - cidade, com violação sistemática da lei, sem qualquer referência no que concerne ao saber estar... é indubitavelmente de um p*tedo total!...

Enigma:
O ruído chega a atingir quase o dobro dos valores máximos admissíveis por lei... e as licenças são sistematicamente renovadas...
Que fragilidades temos aqui escondidas?...

Bem diz o povo: não há fumo sem fogo...

N.B.: Alguém escolhe, para sócio, uma entidade com a qual não tenha qualquer afinidade ou, antes, proximidade e até uma forte cumplicidade, de perfil e de projeto?!...

Leone , 17 Setembro 2012
independentemente dos motivos específicos, é positivo
«... o País parece anestesiado, uma espécie de resignação colectiva que tudo permite e nada contesta»

Finalmente, parece iniciar-se uma inflexão desta atitude...
Phil , 17 Setembro 2012
selvagem e sem norte
«É precisamente por estar a fazer exatamente o contrário daquilo a que se comprometeu perante os portugueses que este governo perdeu toda a legitimidade para continuar a definir os destinos do país!...»

É uma pena que os portugueses não vejam para lá do bloco central...
Estamos condenados a este cinzentismo, cada vez mais selvagem...
Gigi , 17 Setembro 2012
olhar e ver
Miguel Portas deixou inspiração para o desassombro, a seriedade, a honradez, o discernimento (!) ...

As pessoas existem...
A equipa é possível...
O projeto, idem...

É olhar e ver...

Phil , 17 Setembro 2012
Gestão danosa e traição à Pátria
«... INSTITUTOS PÚBLICOS (SUBIRAM ASTRONOMICAMENTE SÓ ESTE ANO!...),»

Isto só vai deixar de acontecer quando os políticos começarem a ser criminalmente responsabilizados por gestão danosa e traição à Pátria, i e, efetivamente presos e obrigados a ressarcir o Estado pelos prejuízos causados, designadamente através da devolução do dinheiro indevidamente desviado do erário público para os privados!...
Nureyev , 17 Setembro 2012
capital - onde moras?
«Parte do seu salário constitui hoje algum - algum! - peso morto na competitividade das empresas...»

É extraordinário como facilmente se tende a fazer a apologia do corte aos salários, desprezando-se sistematicamente o potencial do GRANDE capital...
É mais fácil, bem se vê...
De resto, sempre fomos 'bons' a seguir as vias mais fáceis...
Esta-nos nos genes...
Nureyev , 17 Setembro 2012

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© InVerbis | 2012 | ISSN 2182-3138 

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