In Verbis


icon-doc
REVISTA DE 2012

A alternativa é o Banco de Portugal

  • PDF

Jorge Bateira - Os portugueses já perceberam que este caminho não tem saída e levar-nos-á ao desastre. Fartos do teatro na política, desiludidos com os partidos bem vistos em Bruxelas, talvez possam começar a fazer o luto do euro e abrir-se à ideia de recuperar a soberania monetária e, com ela, o crescimento e o emprego.

Em Outubro do ano passado, na crónica com título "A caminho do desastre", escrevi: "É triste, mas, é preciso dizê-lo, a economia portuguesa encaminha-se para o precipício pela mão de obstinados seguidores da religião neoliberal." Nessa altura, é bem provável que os leitores tenham considerado a frase excessiva. Porém, a evolução da crise encarregou-se de a tornar uma evidência para a maioria dos portugueses.

Numa entrevista recente, embora por outras palavras, Manuela Ferreira Leite (MFL) disse o mesmo. Constatou o fracasso da política económica em curso, criticou o uso abusivo de modelos da economia por parte do ministro das Finanças e chegou mesmo a afirmar que o saber dos economistas pertence ao universo das ciências sociais. Não disse, mas era o momento para lembrar, que a complexidade, a incerteza, a não convergência para o equilíbrio são propriedades dos processos sociais incompatíveis com as relações lineares e probabilísticas embutidas nos modelos com que o ministro das Finanças trabalha. Com ó cuidado político que seria de esperar, MFL constatou que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças recusam admitir que a realidade desmente os seus modelos.

E tem razão porque, recusando toda a evidência histórica disponível, são movidos por uma dupla crença: o empobrecimento é a solução para reduzir o endividamento público e privado do país e a sua missão consiste em fazer a reengenharia da sociedade portuguesa para que tal se concretize até 2014. Não são economistas, são fundamentalistas da religião neoliberal.

Com o maciço protesto de 15 de Setembro, a sociedade portuguesa disse a estes fanáticos: Basta! Nesse dia, os portugueses repudiaram muito mais do que a iníqua reconfiguração das contribuições para a Segurança Social a pretexto de uma fictícia criação de empregos. Fartos de sacrifícios inúteis, perdidas as ilusões sobre a eficácia da política inscrita no Memorando de entendimento, os portugueses disseram ao governo e à troika que não querem repetir o desastre da Grécia.

Podem ter dúvidas sobre qual é a alternativa, mas já têm uma certeza: este caminho não serve. Tanto bastou para que Vítor Constâncio, em nome do BCE, a Comissão Europeia, através de um porta-voz, Angela Merkel, pessoalmente, a agência financeira Moody's, em comunicado, uns atrás dos outros viessem lembrar que Portugal tem de manter o caminho da austeridade e mesmo reforçá-la. Assustados, disseram ao povo português que a austeridade é o caminho e que não temos escolha.

Com a economia em recessão grave, causada pela contracção da procura interna decorrente da austeridade, o governo "bom aluno" afinal não cumpriu o objectivo do défice para 2011, está a preparar austeridade adicional para tentar cumprir o de 2012 (aliviado pela troika para 5%) e não sabe o que fazer com o Orçamento de 2013, agora encurralado pelo repúdio nacional e por uma sentença do Tribunal Constitucional (não é só na Alemanha!). Os portugueses já perceberam que este caminho não tem saída e levará ao desastre. Fartos do teatro na política, desiludidos com os partidos bem vistos em Bruxelas, talvez possam começar a fazer o luto do euro e abrir-se à ideia de recuperar a soberania monetária e, com ela, o crescimento e o emprego.

Perguntará o leitor, saindo do euro, como poderia o Estado pagar no imediato salários e pensões? A resposta é simples, conhecida há muito tempo e funciona em todo o mundo desenvolvido, excepto na zona euro. A alternativa à troika e aos mercados financeiros é o Banco de Portugal.

Jorge Bateira, Economista | ionline | 20-09-2012

Comentários (1)


Exibir/Esconder comentários
Nâo pode
Se se sair do euro, não há quem empreste dinheiro.
Se não emprestarem dinheiro, temos que comer o que produzimos.
Será que somos assim tão ricos que podemos consumir só e apenas o que produzimos?
Será que as empresas conseguem financiamentos em bancos que não têm para emprestar.
Se agora estão a encolher os vencimentos. Depois NÃO HÁ vencimentos.?
A recessão será incontrolável.
Exemplo: Argentina
QQQQQQ , 20 Setembro 2012

Escreva o seu comentário

reduzir | aumentar

busy

Últimos conteúdos

A estrutura da InVerbis está organizada por anos e classificada nos correspondentes directórios.Os conteúdos publicado...

O Estado assumiu, através da empresa pública Parvalorem, a dívida de quase 10 milhões de euros de duas empresas de Vítor...

Dos 118 homicídios cometidos em 2012, 63 tiveram familiares como protagonistas • Cinco pais e 18 padrastos detidos por a...

Pedro Lomba - Na primeira metade do ano o ajustamento negociado com a troika correu dentro do normal e expectável. Mas d...

Últimos comentários

Tradução automática

Opinião Artigos de Opinião A alternativa é o Banco de Portugal

© InVerbis | 2012 | ISSN 2182-3138 

Sítios do Portal Verbo Jurídico