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REVISTA DE 2012

O nojo!

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João Vieira Pereira - Ao fim do dia não sei o que me agonia mais, se os que não sabem como tapar o rombo no fundo do barco se aqueles que aparecem para lucrar com os destroços do naufrágio depois de terem sido eles a provocá-lo.

Aquele momento em que militantes do PSD, CDS e membros do próprio Governo colocam a cabeça entre as mãos e apoiam os cotovelos nos joelhos chegou. Por mais que tentem, é impossível arranjar uma justificação lógica para impedir que as novas medidas de austeridade não sejam vistas como um chorrilho de asneiras.

O Governo decidiu avançar para a polémica desvalorização fiscal à custa do rendimento dos trabalhadores. No meio da maior crise económica dos últimos 40 anos, onde a perda do rendimento disponível das famílias tem sido enorme, Passos Coelho tira do trabalho para dar ao capital com a promessa de que isso irá criar emprego. E fá-lo com a desculpa de que o Tribunal Constitucional o obrigou. Mesmo que isso seja verdade, que de facto esta medida permita melhorar as condições de empregabilidade, é impossível perceber tal medida à luz da crise que nos rodeia.

O ajustamento económico português era um sucesso na Europa porque todos tínhamos a noção de que aquilo que tinha sido feito até agora era minimamente justo. Esse sentimento de justiça foi-se numa sexta-feira à noite perante um primeiro-ministro mal preparado, mas especialista em assumir as más notícias, como se isso fosse uma virtude. Essa coragem que diz ter está a ser a sua e a nossa ruína.

Apertamos o cinto, tornamo-nos os bons alunos da Europa, ganhamos um ano para o ajustamento, mas levamos com um novo pacote de austeridade que nos vai diretamente ao bolso porque ainda vivemos acima das nossas possibilidades. Então nada melhor do que reestruturar os escalões de IRS, aumentando o taxa média de imposto, ou cortar nas pensões.

Já do lado da despesa continuamos com promessas de que algumas coisas irão acabar, mas não temos um único exemplo que seja possível citar a não ser os eternos cortes nos salários ou os aumentos das contribuições sociais.

Não há maneira de evitar que tudo isto comece a causar náuseas.

Só que o nojo não fica por aqui.

De repente, saem da toca os que durante seis anos destruíram o país sob a batuta de Sócrates. Gritam agora como nunca contra o Governo porque ao fim de ano e meio pressentem que as coisas estão a mudar e já falam em regressar ao poder. Aqueles que são os primeiros culpados pela ruína do país, aqueles que nunca foram responsabilizados, nem nunca serão, pelo crime de nos levar à bancarrota, têm agora a coragem de voltar a falar.

Ao fim do dia não sei o que me agonia mais, se os que não sabem como tapar o rombo no fundo do barco se aqueles que aparecem para lucrar com os destroços do naufrágio depois de terem sido eles a provocá-lo.

João Vieira Pereira | Expresso | 15-09-2012

Comentários (2)


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tirar as palinhas - urge!...
«... saem da toca os que durante seis anos destruíram o país sob a batuta de Sócrates (...) os primeiros culpados pela ruína do país...»

É verdade!...
Será que o povo só consegue ver - continuar a ver - o famigerado bloco central?!...
Santa pequenez!...
Leo , 16 Setembro 2012
José Pedro Faria (Jurista) - Solidariedade
"O ajustamento económico português era um sucesso na Europa porque todos tínhamos a noção de que aquilo que tinha sido feito até agora era minimamente justo", pode ler-se nesta crónica.

Ou seja: enquanto apenas se cortaram salários dos trabalhadores públicos (em sentido amplo) estava tudo bem. Era justo.

De súbito, eis que se corta também aos trabalhadores do setor privado. De súbito, fica tudo mal e injusto (ainda que os trabalhadores públicos continuem muito mais prejudicados. No meu caso pessoal, além dos dois subsídios*, ainda sofro o confisco mensal de uma determinada percentagem do vencimento).

No entanto, os trabalhadores do setor privado já corriam o risco de ser prejudicados indiretamente devido à perda do poder de compra dos trabalhadores públicos! Mas como a consequência era principalmente o desemprego, e a filosofia de muitas pessoas, infelizmente, é: esse é um problema que não é meu, eu tenho emprego, "os outros que se danem", os protestos eram relativamente limitados. Ouvi pregar esta filosofia estúpida de apoio aos cortes seletivos vezes demais.

Agora que, nominalmente, os trabalhadores do setor privado são igualmente atingidos, eis que cai o Carmo e a Trindade! Por este exemplo se observa a falta de solidariedade de muita gente.

__________

* Nota: os subsídios fazem parte integrante da remuneração base (que é - ou era) paga em 14 prestações anuais, nos termos da Lei em vigor. Os subsídios não são "bónus" como "estranhamente" sustenta Vital Moreira.
José Pedro Faria (Jurista) , 16 Setembro 2012

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