In Verbis


icon-doc
REVISTA DE 2012

Alívio quantitativo é a política certa para a Europa

  • PDF

Wolfqang Müchau - Quando ouvi dizer que os EUA lançaram na semana passada um novo programa de "alívio quantitativo" ('quantitative easing'), dei por mim a pensar que Mario Draghi deveria ter feito o mesmo. Em vez disso, o presidente do Banco Central Europeu (BCE) optou por um programa de compra de dívida sujeito a condições e sem data concreta para entrar em funcionamento. Ora, a titubeante economia da zona euro precisa de um estímulo monetário mais firme e determinado, e precisa dele já.

Perante as boas notícias - o tribunal constitucional alemão deu luz verde ao fundo de resgate europeu, os holandeses rejeitaram a propaganda populista e reelegeram o actual governo e Mario Draghi fez o que se esperava -, os líderes europeus parecem estar sob o efeito de uma embriaguez de optimismo, apesar da situação económica dos estados membros se agravar. Há muito que a vida não lhes corria tão bem. O programa de Transacções Monetárias Definitivas, ou TMD, do banco central deu-lhes uma "folga", deixou-os respirar.

No entanto, a credibilidade do programa TMD poderá em breve ser posta em causa. Mariano Rajoy continua a não ser claro sobre se Espanha vai, ou não, pedir um resgate. O BCE facilitou a vida ao primeiro-ministro ao definir que Madrid apenas terá de candidatar-se a um programa preventivo com condições limitadas, a Linha de Crédito com Melhores Condições (Enhanced Conditions Credit Line). Mario Monti, primeiroministro italiano, já declarou que só recorrerá a esta linha depois de eleito e altos dignitários da União Europeia admitem a possibilidade dos estados membros não virem a recorrer a este programa. Pode, pois, acontecer que o BCE não tenha de comprar uma única obrigação.

Proponho o seguinte exercício: vamos supor que Rajoy e Monti recorrem ao programa TMD, sujeito a condições externamente impostas. O que fará o BCE quando o novo governo italiano tomar posse no próximo ano e decidir alterar ligeiramente as reformas em curso, à imagem do que os gregos fizeram recentemente? Irá o BCE sancionar Itália perante o risco de o país entrar em colapso económico e de a Europa falir financeiramente? Como a resposta a estas perguntas é por demais óbvia, estou certo de que eleitores e representantes eleitos terão motivos para acusar Draghi de bluff ou, pelo menos, de o empurrar até ao limite.

Contudo, Draghi tem razão numa coisa: o BCE deve reparar os mecanismos de transmissão monetária. Assim sendo, por que não fazemos o mesmo que os americanos e começamos já a comprar obrigações de empresas e outras obrigações de taxa fixa, incluindo bancárias? Em vez de instituir um programa complexo de compra de títulos de dívida sujeito a condições, o BCE devia concentrar-se na implementação de um amplo estímulo monetário. E embora não acredite que uma nova descida da taxa de juro possa fazer qualquer diferença, também não vejo razão para adiá-la.

Neste momento, o maior perigo que a zona euro enfrenta não é uma eleição ou uma decisão de um tribunal, mas sim a rápida deterioração da economia. A procura global está a abrandar, o euro recuperou face ao dólar e a política orçamental é pró-cíclica. Um programa de alívio quantitativo teria sido a melhor medida - e possivelmente a única paratravar uma crise que se auto-reforça.

Wolfqang Müchau, Tradução de Ana Pina | Diário Económico | 20-09-2012

Comentários (0)


Exibir/Esconder comentários

Escreva o seu comentário

reduzir | aumentar

busy

Últimos conteúdos

A estrutura da InVerbis está organizada por anos e classificada nos correspondentes directórios.Os conteúdos publicado...

O Estado assumiu, através da empresa pública Parvalorem, a dívida de quase 10 milhões de euros de duas empresas de Vítor...

Dos 118 homicídios cometidos em 2012, 63 tiveram familiares como protagonistas • Cinco pais e 18 padrastos detidos por a...

Pedro Lomba - Na primeira metade do ano o ajustamento negociado com a troika correu dentro do normal e expectável. Mas d...

Últimos comentários

Tradução automática

Opinião Artigos de Opinião Alívio quantitativo é a política certa para a Europa

© InVerbis | 2012 | ISSN 2182-3138 

Sítios do Portal Verbo Jurídico