Falta de confiança na justiça é "chocante e surpreendente"

O sociólogo António Barreto ficou impressionado com a constante perda de confiança dos portugueses na justiça nos últimos 10,15 anos: caiu de 49% para 28%. Foi o que mais o surpreendeu nos dados fornecidos pelo novo portal Opinião Pública (www.pop.pt), ontem lançado, no qual é traçado o perfil da opinião sobre temas centrais, da família à religião.

Para o politólogo Pedro Magalhães, coordenador do projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o destaque recaiu num sinal subtil de aumento de confiança na economia. Os portugueses, à semelhança dos irlandeses, mostram uma "ligeira recuperação de confiança de maio de 2012 para dezembro", ao contrário dos espanhóis e dos gregos. Embora ressalve estarmos perante uma tendência bastante flutuante.

Os dados do POP, explicou, tornam possível contrariar ideias enraizadas e populares, de que é exemplo os portugueses serem especialmente tolerantes aos imigrantes ou menos infelizes do que os suecos, por causa do clima e temperamento. Não é verdade. Outra das vantagens deste tratamento de informação - baseado na recolha em vários organismos - é o de ter uma base factual comum para o debate, disse António Barreto.

Sem rodeios, Barreto assumiu o choque "no decréscimo de confiança dos portugueses nas instituições da justiça, nos tribunais e nos magistrados". Sublinhou: "É "chocante e surpreendente, é muito forte. Tem um impacto na sociedade toda. Tudo o que se faz envolve justiça: contratos, emprego, habitação, casamento". No seu entender, tal facto devese à lenta mudança das instituições da justiça face ao mercado, à democracia, à União Europeia. "É um dos raros setores que foi muito pouco mudado pela democracia, pela liberdade desde 75". "Adaptou-se muito dificilmente e cada vez mais dificilmente" e, além disso, "é muito pouco aberto ao escrutínio" e "está fechado aos cidadãos e aos valores universais". A justiça "tem dentro de si própria uma espécie de sistema de poderes, o poder do ministério da Justiça, dos magistrados (...), sistema de poder terríveis, muito fortes".

Alice Ramos, professora do Instituto de Ciências Sociais, responsável pelo POP, chamou a atenção para os valores privilegiados na educação. Portugal mantém a valorização acentuada do respeito à autoridade, ainda que a diminuir. Na Suécia, sobressaem os incentivos à criatividade e à autonomia.

OUTROS DADOS

Insatisfeitos com vida
Portugal está na cauda dos satisfeitos com a vida. Atrás só Letónia, Grécia e Bulgária. Na escala da felicidade temos 6,7 em 10. Os mais felizes são dinamarqueses.

Confiança na polícia
No quer toca à confiança na polícia, os portugueses estão a meio da tabela. Existem 11 países atrás. À frente, Dinamarca e Suécia.

Imprensa bem vista
Em confiança na imprensa, Portugal encontra-se no pelotão da frente: 51% tende a confiar. Áustria (66%), Finlândia e Holanda no topo.

Jornal de Notícias | 21-02-2013