Fernando Sobral - Em "A Zaragata" de Astérix, César tem um plano genial para conquistar a aldeia que escapa ao seu controle. Usa um especialista em estratagemas, Tulius Detritus, que espalha a intriga e a desconfiança para minar a unidade dos gauleses.
Pedro Passos Coelho não precisa de Tulius Detritus. Ele próprio ateia a confusão. Numa altura em que, por culpa dos partidos políticos, as eleições autárquicas são um evento com mais dúvidas do que certezas (porque o Parlamento em ver de decifrar o que legislou atirou o problema para os tribunais e, claro, para o Tribunal Constitucional que tanto se critica), o primeiro-ministro tira do bolso um inimigo principal para servir de saco de pancada.
O Tribunal Constitucional está a ser colocado, perante a opinião pública, como a força de bloqueio que não permite que o país se torne um paraíso. É uma boa desculpa para quem permite que a dívida externa continue a aumentar e que a austeridade continue a ser a regra enquanto se fala de relançamento económico.
Passos Coelho pretende, no meio da zaragata, criar um clima propício a um regime de excepção. E com isto iludir a erosão que corrói as fileiras da maioria. Ao atirar todas as culpas para o Tribunal Constitucional, Passos quer ilibar-se da incapacidade para cortar a despesa do Estado de uma forma séria.
Compreende-se a confusão: o perímetro governamental foi o único local do país onde cresceu o emprego. Passos confunde a abundância de emprego no Governo com Portugal. Foi por isso que os "briefings" foram um honroso falhanço: feitos para instalar a confusão, causaram o caos no próprio Governo. Querendo criar notícias, tornaram-se a notícia.
Chamem depressa Tulius Detritus.
Fernando Sobral | Jornal de Negócios | 20-08-2013
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