Inversão da queda da economia é sinal positivo, mas insuficiente para evitar recessão. Austeridade prevista para o Orçamento do Estado de 2014 pode deitar tudo a perder.
Pode ser o início do fim da crise ou um acidente no percurso da recessão. Tudo dependerá da Europa e de como o Governo calibrar a austeridade com o estímulo à economia, dizem especialistas ouvidos pelo JN.
Um trimestre de crescimento económico depois de dez de queda é um sinal positivo e nada mais do que isso, tanto que sucede a um início do ano pior do que o esperado. A opinião é unânime entre os economistas ontem ouvidos pelo JN, a propósito do crescimento de 1,1% do PIB no segundo trimestre do ano, quando comparado com o primeiro trimestre, ontem revelado pelo Instituto Nacional de Estatística.
Num quadro de recuperação europeia, com números positivos a serem divulgados também para a Alemanha e a França, a grande incógnita é a política pública para o próximo ano. Arlindo Cunha, docente da Católica do Porto, resume: "Temos de continuar a sanear as finanças públicas, mas precisamos de crescer - é fundamental saber dosear as duas políticas".
Um Orçamento para 2014 demasiado austero, como se prevê se as metas do défice não forem flexibilizadas, pode anular o sinal positivo. Tanto que as causas do crescimento entre março e junho estão identificadas e não se repetirão, diz Caldeira Cabral, da Universidade do Minho: a subida das exportações graças sobretudo à maior capacidade de refinação da Galp; o aumento do consumo interno, depois de o Tribunal Constitucional ter anulado o corte de subsídios à Função Pública; e a maior atividade da construção civil, a que não serão alheias as eleições autárquicas.
Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social, partilha o alerta sobre o Orçamento do Estado. "Este crescimento inverte dez trimestres de queda, mas esperemos que a tendência se consolide depois de 15 de outubro", data limite para a apresentação do Orçamento à Assembleia da República.
Tanto que o desemprego não abrandará de forma sustentada sem que a economia cresça ao ritmo de 2,5% ou 3% ao ano, lembra o moderador da Concertação Social.
Portugal está longe de alcançar essa meta, este ano. Caldeira Cabral desfia os números: "No primeiro trimestre, produzimos menos 4% do que no homólogo; no segundo, menos 2%. Significa que, na primeira metade do ano, produzimos menos 3% do que no ano passado".
A previsão do Banco de Portugal indica que o país deverá a acabar 2013 a cair 2%, o que pressupõe que o resto do ano continuará a melhorar, mas os economistas ontem ouvidos pelo JN não avançam com previsões para o futuro. A evolução da economia europeia, o grau de austeridade imposto pelo Governo e a manutenção do crescimento das exportações são uma incógnita.
Em todo o caso, ajudava reduzir os custos de contexto, como "a burocracia e o financiamento às empresas", acrescenta Manuel Porto, docente na Faculdade de Direito de Coimbra.
Alexandra Figueira | Jornal de Notícias | 15-08-2013
Comentários (1)
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José Pedro Faria (Jurista) - Suprema ironia
E até existe uma situação curiosa.
Uma das causas do mencionado crescimento económico verificado, é, tal como bem diz o Prof. Caldeira Cabral, o aumento do consumo interno, "depois de o Tribunal Constitucional (TC) ter anulado o corte de subsídios à Função Pública".
Não deixa de ser irónico que o TC, que foi tão atacado pelo Governo (compreende-se: se a existência de leis atrapalha, ainda mais atrapalham os tribunais), acabe, afinal, agora por dar uma "mãozinha" a este indescritível executivo. Nada que não tivesse sido previsto por vários analistas e comentadores. Suprema ironia que não impede, contudo, o Governo de, envergonhadamente, vir dizer que "estamos no bom caminho".
O crescimento é bem vindo, infelizmente não vejo como poderá manter-se, especialmente porque os cortes cegos e desumanos que se perfilam no horizonte ajudarão a perturbar ainda mais o crescimento da economia.
Para além disto, temos gravíssimos problemas de fundo que não se resolvem com crescimentos anémicos: uma dívida pública enorme e uma dívida privada gigantesca, sendo que esta última é muito maior (mais do dobro da dívida pública). E não esqueçamos que a dívida pública também tem crescido em consequência da inqualificável "nacionalização" de milhares de milhões de euros de dívida privada constituída por lixo financeiro (só o caso do BPN custou e custará ao Estado algo como perto de 5% do PIB, um valor astronómico).
Nenhum esforço de propaganda pode disfarçar as profundas causas da crise e a grave situação em que os partidos do ora chamado "arco da governabilidade" colocaram o país.


