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REVISTA DE 2012

Carta demolidora do Director da Biblioteca Nacional

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A autodemissão por carta do diretor da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), Pedro Dias, continua a gerar polémica nas redes sociais devido ao teor muito crítico do que escreveu ao bater a porta. O investigador enviou a carta no dia 11 ao chefe de gabinete do secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, onde expunha as razões de forma bastante cáustica, depois de referir o "desconforto" pela situação criada devido a "sucessivos adiamentos" para a sua saída. Pedro Dias é demolidor da governação e da maçonaria.

A Secretaria de Estado da Cultura (SEC) tem evitado alimentar a polémica, mas aceitou reagir ao DN, ignorando "as opiniões transmitidas pelo professor Pedro Dias na sua qualidade de cidadão, seja nas redes sociais ou em outros" espaços. Desse modo, a SEC confirma que a solicitação tinha "sido reiterada por diversas vezes através de cartas invocando exclusivamente razões de saúde", daí que fosse "substituído no cargo de diretor-geral da Biblioteca Nacional a seu pedido".

A carta completa foi publicada por Pedro Dias no seu Facebook, com a indicação "ACABOU A COLABORAÇÃO COM O GOVERNO. ENVIEI HOJE ESTA CARTA AO SECRETÁRIO DE ESTADO DA CULTURA SER CÚMPLICE DE PASSOS COELHO E DO SEU GOVERNO, NÃO."

"Exmo. Senhor Doutor Rui Pereira
Muito Ilustre Chefe de Gabinete do Secretario de Estado da Cultura
Palácio Nacional da Ajuda Lisboa

Venho, por este meio, manifestar a V. Exa. o meu desconforto pela situação que me foi criada, com os sucessivos adiamentos da minha saída da direcção da Biblioteca Nacional. Ficou claro, quando do surpreendente convite que me foi feito, que só o aceitaria, pelo período necessário que decorresse até à reabertura ao público da Biblioteca Nacional de Portugal. Acaba de passar um ano sobre essa data, em que, todo o espólio da instituição, fisicamente ou através de meios informáticos, voltou a estar disponível.

Apesar dos meus apelos, e da minha renúncia formal, em 28 de Dezembro passado, não fui dispensado, acrescendo que, desde 1 de Abril último, por motivo da entrada em vigor da nova Lei Orgânica, me encontro em gestão corrente. Os prejuízos pessoais e familiares para mim são grandes, e do ponto de vista de saúde ainda pior.

Mais ainda, não só não me revejo na politica do Senhor Primeiro Ministro, como estou completamente contra ela, e não reconheço legitimidade ao Governo para se manter em funções, por ter renegado todas as promessas feitas ao eleitorado, e que constituem a base da sua legitimidade democrática. É assim absolutamente inaceitável ser cúmplice destas acções, enquanto Director-Geral, participando na delapidação de Portugal e dos seus recursos, em benefícios de grupos económicos, com o esmagamento das classes trabalhadoras e do domínio, no campo politico, da Maçonaria, entidade que sempre combati.

Já me desvinculei do PSD, de que já não sou militante, e não desejo voltar a ter qualquer colaboração com esta instituição, que nada tem a ver com a que, a partir de Maio de 1974, ajudei a desenvolver e a afirmar-se. Dado que não consigo falar com Senhor Secretario de Estado, com quem só me avistei duas vezes, desde 1 de Julho de 2011, recorro a V. Exa., para que lhe seja transmitido o teor desta carta. Os problemas que o Governo tem com a substituição dos Directores-Gerais são fruto da sua própria politica, da sua descredibilização e da sua inépcia, pelo que não me devo sujeitar aos resultados das suas acções e omissões, quando sou clara e frontalmente oposição ao mesmo. Enquanto Director-Geral, não boicoto a sua actividade nem deixo de cumprir as minhas obrigações, fazendo tudo o melhor que consigo e sei, mas contrariado.

Com os roubos sucessivos que tenho sido alvo, nada me move para auxiliar aqueles que, paulatinamente, arruínam Portugal. Peço pois, uma vez mais, para ser libertado deste fardo que é demasiadamente pesado para mim e que não mereço suportar; é castigo por crime que não cometi.

Apresento a V. Exa. os meus mais respeitosos cumprimentos
Coimbra, 11 de Setembro de 2012."

Diário de Notícias | 19-09-2012

Comentários (7)


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Apoiado!
Tem graça, eu sinto-me (e julgo que muitos outros cidadãos) como este director da biblioteca nacional, Pedro Dias. Também deixei de reconhecer neste governo a ligitimidade para o exercicio desta governação de navegação à vista, errante, arrogante e sem estratégia de médio e longo prazo. E, acima de tudo, governação sem coragem de mudar e reconhecer que não nos conduz a bom porto.
Luis , 19 Setembro 2012 | url
...
Pena é que seja notícia.
É que deveria ser tão frequente este tipo de atitudes que já não deveria ser notícia.
Infelizmente, é caso raro.
Eu , 19 Setembro 2012 | url
desassombro... e novos horizontes..
Chama-se a isto arrumar o sótão... clarificar as ideias e trabalhar a consciência...

O desapego, designadamente de cargos bem remunerados, e a firmação de posições de dignidade é sempre digna de nota; é sempre notícia...

Boa notícia..
margot , 19 Setembro 2012
...
Muito bem! Um claro exemplo a seguir por todos os que se sentem injustiçados, ou que não mais podem tolerar o que estão a fazer a todos os portugueses.
Contribuinte espoliado , 19 Setembro 2012
É só aldrabice, vejam a carta oficial no facebook
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=407246805996506&set=a.378587822195738.90386.100001335708951&type=3&theater

Pedro Dias
14/9

FUI FINALMENTE EXONERADO DO CARGO DE DIRECTOR-GERAL DA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL.

É este o meu último dia como Director-Geral da nossa Biblioteca Nacional. Finalmente, depois de mais de nove meses de ter apresentado o meu pedido de renúncia ao cargo, fui liberto da tarefa para que tinha sido chamado, a 1 de Julho do ano passado, e que, tal como a questão foi posta, não deveria durar mais do que até à reabertura total da BN.
No entanto, por razões várias, a minha tarefa foi prolongada, muito para além do que eu desejava.
Fiz o melhor que sabia e podia, tendo o privilégio de dirigir uma equipa de excepcionais funcionários públicos, técnicos e administrativos, com enorme sentido de responsabilidade e grande profissionalismo. De entre todos, tenho que salientar o papel decisivo, para o êxito desta minha administração, da Senhora Sub Directora-Geral, Doutora Inês Cordeiro.
Saio com a consciência de ter cumprido o meu dever, desde logo o de responder positivamente a um desafio, na altura urgente e inadiável. Outros certamente teriam feito melhor, mas eu não sou especialista nesta área, pelo que creio ser aceitável pedir-se-me mais.
Não posso deixar de ter uma palavra de apreço para com o Senhor Secretário de Estado, Dr. Francisco José Viegas, que me honrou com o seu convite e com a confiança que em mim depositou, e também para o meu grande amigo e colega de trabalho, em muitas ocasiões, Professor Doutor Rui Pereira, Chefe de Gabinete do SEC.
A todos os que me incentivaram, nos meses difíceis que atravessámos, o meu muito obrigado.
Outras tarefas aguardam-me; sou um reformado que só tem um desejo: continuar a trabalhar, mais e melhor.
À nova Directora-Geral, Senhora Doutora Inês Cordeiro, desejo as maiores felicidades, com a certeza de que a direcção desta Casa de Cultura não poderia ficar em melhores mãos.
Pedro Aguiar , 19 Setembro 2012 | url
Conhecem o Doutor Pedro Dias?
Antes de mais, digo já que nunca (jamais!) votei em nenhum dos partidos que estão neste Governo e tenho raiva a quem o fez.
O Doutor Pedro Dias, como diretor da Biblioteca Nacional de Portugal, não optou pelo ordenado de professor catedrático? Se, e quando, o deixou de receber foi porque se reformou, passando a receber a sua reforma. Não acumulava o ordenado ou a reforma com o subsídio de instalação?
Deviam perguntar ao Doutor Pedro Dias porque é que ele recebia o subsídio de instalação - quando nunca se instalou em Lisboa. Mais: em mais de um ano que esteve como Diretor-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal, quantos dias (melhor: quantas horas!) é que ele permaneceu nas instalações da BNP?
Aliás, já em tempos tinha exercido o lugar de director da Torre do Tombo, onde deixou péssimas recordações. E como professor da Faculdade de Letras de Coimbra também não era muito assíduo às aulas.
Para terminar: não há pachorra para o ódio vesgo que o Doutor Pedro Dias tem em relação à Maçonaria.
Parece-me que o único beneficiado aqui foi ele. A demissão só pecou por tardia. Na verdade, nunca devia ter sido nomeado.
Este Governo merece uns cromos destes!
Maria Tolstoi , 19 Setembro 2012 | url
...
Mas como é possível surgirem duas cartas, da mesma pessoa e acerca da mesma matéria, completamente diferentes?
Algo muito estranho se passa aqui.
Deverá até ser investigado, porque deverá existir aqui, ou falsificação, ou difamação.
Veja-se ainda o que, num comentário, refere a pessoa em questão acerca do governo:
Pedro Dias Minha querida Deolinda. Pode acusar este Governo de tudo, menos de "não ter unhas para me segurar". A verdade é que os membros do Governo que tinham em mãos a minha permanência ou saída, tudo fizeram, meses a fio, para que eu ficasse. Por eles, estaria lá os próximos 20 anos, e só tenho que lhes agradecer a confiança que sempre depositaram em mim e o aplauso reiterado ao meu trabalho. Quanto a uma coisa pode estar certa: foram insuperáveis e eu estou-lhes imensamente grato, e mostraram um imenso fair play porque em momento algum me chamaram a atenção ou criticaram, pela forma violenta como eu criticava o próprio Governo.

Mas em que ficamos?
caso de polícia , 20 Setembro 2012

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