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REVISTA DE 2012

V (ou: a “anomia à portuguesa”)

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José Faria Costa - Em momentos de convulsão, a perda do sentido onde fica o norte é olhada como normal. Ora, é dever de todos prestar particular atenção aos primeiros sinais indicadores daquele estado de convulsão ou confusão.

Porquanto, se lhe não prestamos o devido cuidado, as coisas podem azedar-se e não é bom decidir-se, o que quer que seja, sem se saber o que fazemos ou para que lado vamos. Falamos, obviamente, de situações de radical perturbação social. E este tempo é, entre nós, de anomia e de indiscutível turbulência moral e consequentemente social.

Vivemos em um tempo de anomia. Por certo. Vale por dizer: em uma época em que se pode dizer tudo e o seu contrário e tudo, mas tudo, fique igual, sem tirar nem pôr. Mais. Em poder dizê-lo sem cair em contradição lógica ou, se nos colocarmos em horizonte moral, sem mergulhar em qualquer angústia ou sequer ter leve tremor ético. Passa-se pelas coisas, agimos e valoramos tudo à superfície. Quem quiser ou sequer ousar querer ir um bocadinho mais longe ou mais fundo imediatamente é apodado de pretensioso, de teórico, com conotação pejorativa, ou, quando não, de tolinho. Tudo tem de ser visto pela rama e olhado e valorado de modo ligeiro e célere.

Porém, o que é particularmente interessante na anomia que se vive em Portugal é que ela pode ser caracterizada — e é isso um dado não despiciendo e que deve ser motivo de análise e estudo — como "anomia à portuguesa". Então, o que é que tem de tão característico este "estado" com que temos vivido e com que, pelos vistos, vamos continuar a viver?

Paremos, um minuto que seja, a olhar, com olhos de ver, a realidade e de imediato nos damos conta de que a "anomia à portuguesa" não se afirma de ruptura na igualdade, de corte na igualdade relativamente aos grandes valores. Não. Nada disso. É uma ruptura mole que, às vezes, se mostra mesmo pastosa. Não, não é de plástico, porquanto este, por mais manipulável que seja, ainda apresenta alguma dureza, e o que é pastoso outra coisa não pode ser senão "coisa" pastosa. Nas formas clássicas e normais de "anomia" as percentagens de homicídios, de ofensas corporais graves ou de outros crimes violentos crescem exponencialmente, porquanto se entende, os membros dessa comunidade entendem, que os valores não são para respeitar e que as regras morais deixaram de ter qualquer serventia. Ora, se nesse cenário as coisas se passam desse jeito é evidente que a inexistência de interditos conduz, necessariamente, ao desaguar torrencial de condutas desviantes ou mesmo criminosas. Porém, entre nós, há quem diga que felizmente, tudo se passa de maneira mais cândida, ainda mais intercomunicante. Vejamo-lo: "Tu estás a fazer-me mal e tu sabes que o estás a fazer mas eu, porque já não sei o que é o bem ou o mal, na dúvida, fico quieto e talvez te venha a fazer mal quando tu o deixares de fazer a mim, porque só, nessa altura, saberei onde está o bem e o mal." Eis o juízo metafísico do português. Isto é: está-se perante uma anomia que verdadeiramente o não é, porquanto, apesar de tudo, nela se valora, se julga, se espera. Em suma e em linha de máxima: a "anomia à portuguesa" é, indubitavelmente, uma anomia de esperar para ver, de desconfiança perante aquilo que se acredita mas que não queremos exprimir corajosamente, de radical conformismo. Porém, sendo o nosso estado normal o conformismo, isso faz com que a "anomia à portuguesa" pouco se distinga da normalidade. O que a torna, também precisamente por isso, uma raridade.

José Faria Costa, Professora da Universidade de Coimbra | ionline | 07-11-2012

Comentários (4)


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Enquanto cidadãos deste "jardim à beira mar plantado" temos mesmo de ser mais exigentes com nós mesmos, com os nossos vizinhos e, acima de tudo, com quem nos governa.

Acho que se assim agíssemos a Nação não chegaria a este estado degradante.
Contribuinte espoliado , 07 Novembro 2012
Descoberta da pólvora..
Ah! Anomia! BOA PALAVRA
Desde há anos que andei por aqui a dizer que "anarca" não era aquele tipo com a máscara do " V " mas aqueles anarco-capiltalistas que nos governam hoje... Com vossa licença mijo-me a rir quando "quod erat demonstrandum" se verifica que afinal os anarcas não são os putos que chateiam a bófia! !!
São os que lhes lhes dão ordens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Pedro Só , 07 Novembro 2012
sie denken und also

Sempre me assaltou a ideia do tipo de histórias que andaram a contar aos alemães, suecos, "dinams" e "norveis" e franceses, aos portugueses a história de embalar é que somos mansos, de brandos costumes ou seja uns imbecis e capachos de países grandes e dos não tão grandiosos a começar pelo do lado que, amigo que é não pode ser comparado aos grandes mas é maior que nós e não é só de um ponto de vista de Km quadrados.
A Senhora Merkel disse ontem que Portugal está no bom caminho para a competitivivade considerando entre outros factores a descida dos salários no nosso País, será que os compatriotas e mais concretamente o eleitorado que votou no Partido da Sra. Merkel iria peceber e aceitar baixos salários para ser mais competitivo? O ponto fulcral é o poder de compra entre Estados. A solução é uma Europa Federalizada com um sistema de representatividade política decalcado do Estadunidense e, obviamente um Presidente da União Europeia eleito de acordo com as mesmas regras que se elege o Presidente dos Estados Unidos. Não encontrei ainda uma crítica aceitável que se oponha esta ordem de ideias e Portugal voltar a ser um Estado "outsider" em relação à União Europeia não vai aumentar o poder de compra dos portugueses.
Swany , 08 Novembro 2012
...?
Pretensioso...com lições de moral...ainda há excelências que vivem muito bem...têm luxo... e ainda falam da anomia à portuguesa....
lições de moralidade , 09 Novembro 2012

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